Bloomberg — Os ativos brasileiros dispararam com a expectativa de que Flávio Bolsonaro enfrente os crescentes problemas fiscais do país e abra caminho para cortes de juros, depois de se tornar o favorito inesperado para vencer a eleição presidencial no segundo turno de 25 de outubro contra Luiz Inácio Lula da Silva.
Flávio teve 47% dos votos no primeiro turno das eleições, no domingo, ante 45% do atual presidente. Os investidores esperavam amplamente que Lula ficasse à frente. Agora, a disputa parece estar nas mãos de Flávio, segundo o JPMorgan Chase em nota.
Os investidores rapidamente ampliaram as apostas de que um programa econômico mais pragmático permitirá ao país reduzir juros que estão entre os mais altos do mundo. Os contratos DIs recuaram mais de 100 pontos-base, o real disparou quase 5% e o Ibovespa, principal índice de ações do país, saltou mais de 9%, para um recorde histórico, no melhor dia dos mercados locais em anos.
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“Flávio é visto como uma opção melhor aos olhos dos investidores”, disse Daniela Da Costa-Bulthuis, gestora da Robeco Institutional Asset Management. A intenção de implementar um plano de consolidação fiscal abriria espaço para o Banco Central continuar reduzindo os juros e abandonar uma “política monetária ultrarrestritiva”, acrescentou.
Embora ainda não tenha apresentado planos detalhados, os investidores veem Flávio — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — como mais propenso a promover ajustes fiscais, como cortes de gastos, considerados essenciais para ajudar a reduzir os juros de dois dígitos que sufocam empresas e famílias.
“É uma surpresa bem-vinda”, disse Antonina Tarassiouk, diretora de análise econômica internacional da Reams Asset Management, que administra US$ 34 bilhões.
“Havia uma assimetria no resultado: ou a manutenção do status quo com Lula ou um desfecho favorável ao mercado com Bolsonaro, focado em consolidação fiscal. Isso dá aos investidores sinal verde para ampliar posições compradas.”
As ações de varejistas, construtoras, operadoras de shopping centers e empresas dos setores de consumo e vestuário devem liderar o movimento de alta do índice acionário, segundo Felipe Arslan, CEO da Morada Capital.
Antes da votação, investidores diziam que uma diferença inferior a quatro pontos percentuais entre os dois candidatos — com Lula sempre considerado o provável vencedor do primeiro turno — seria vista como mais favorável a Flávio e poderia provocar ganhos nos mercados.
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“Como o segundo turno parece estar nas mãos de Flávio, os ativos brasileiros devem subir”, disse Cathy Hepworth, chefe da equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, gestora com US$ 1,5 trilhão em ativos. “O real e os juros devem ter um desempenho muito bom”, acrescentou.
Os primeiros sinais nos mercados globais já apontavam para uma forte alta quando o mercado brasileiro abrir nesta segunda-feira.
ETF que acompanha as ações do país no Japão chegou a subir 14%, e o iShares MSCI Brazil ETF, negociado nos EUA, avançava mais de 12% no pré-mercado em Nova York. Derivativos cambiais negociados na CME também indicavam um dia de forte valorização do real.
Investidores consideram Flávio mais propenso a promover um ajuste fiscal — algo que, segundo o mercado, é fundamental para que o Brasil consiga reduzir os juros que sufocam as empresas e as famílias.
Lula evitou, em grande medida, assumir compromissos com cortes de gastos, e a ampliação de programas de assistência social e de alguns subsídios nas últimas semanas da campanha reforçou as dúvidas dos investidores sobre a disposição do presidente para conter o déficit fiscal.
O JPMorgan estima que, com um ajuste fiscal, o real poderia se valorizar 6%, os juros dos títulos públicos locais poderiam recuar para perto de 13% e as ações poderiam subir até 50%. Uma deterioração fiscal, por outro lado, poderia enfraquecer a moeda em magnitude semelhante, elevar os juros dos títulos públicos para perto de 15,5% e derrubar as ações em 21%.
Os mercados foram surpreendidos em duas frentes pelos resultados de domingo: a vantagem de mais de três pontos percentuais de Flávio e o forte desempenho de candidatos de direita nas disputas pelos governos estaduais, pela Câmara e pelo Senado, segundo Guilherme Abbud, da Persevera Asset Management.
“Do ponto de vista de governabilidade e de agenda econômica, o terreno nunca esteve tão fértil”, disse o CEO da gestora, que administra R$ 4,8 bilhões. “Deve ser um movimento muito forte. E com potencial de ter varios dias subindo.”
Caminho turbulento
A ascensão de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula no fim de 2025 — escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro — inicialmente decepcionou investidores, que preferiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A ligação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, figura central da maior fraude bancária da história do Brasil, aumentou a rejeição do mercado à candidatura.
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No último mês, porém, a melhora das chances de Flávio, diante dos escândalos enfrentados por Lula e da desaceleração da economia, ajudou a impulsionar os ativos brasileiros.
O Ibovespa, principal índice acionário do país, avançou 5% em dólares em setembro, figurando entre os mercados de ações de melhor desempenho do mundo no período.
Mas, com os candidatos empatados nas pesquisas, os investidores optaram em grande medida por derivativos e outras operações capazes de capturar os ganhos de um resultado favorável ao mercado e, ao mesmo tempo, limitar as perdas caso a eleição decepcionasse. Os títulos locais também ganharam popularidade entre os investidores, que apostaram que os rendimentos atuais oferecem proteção durante o período eleitoral.
“A segunda-feira será um dia muito melhor do que até os investidores mais otimistas esperavam”, disse Paulo Abreu, sócio e gestor de portfólio da Mantaro Capital. “O mercado estava pouco posicionado, e esse resultado levará os investidores a aumentar a exposição.”
Na preparação para a eleição de 2022, os investidores locais mostravam muito mais cautela em relação a Lula do que os estrangeiros, que em geral tinham uma visão menos pessimista sobre o petista. A divergência persistiu — investidores locais tendem a se preocupar mais com a disposição limitada do governo para promover o tipo de ajuste fiscal que consideram fundamental.

Ainda assim, os mercados brasileiros percorreram um caminho turbulento, mas no fim das contas positivo, desde que Lula voltou ao poder em janeiro de 2023.
O dólar, que atingiu a máxima histórica em 2024 durante uma onda generalizada de compra da divisa provocada pelo aumento das preocupações com a trajetória fiscal do país, acumula queda de pouco mais de 1% durante o mandato. Juros elevados, dólar global mais fraco e um movimento de diversificação para fora dos mercados dos EUA ajudaram a impulsionar os ativos brasileiros, assim como os mercados emergentes de forma mais ampla.
Uma pesquisa da XP, a maior corretora do país, com 116 investidores institucionais sobre as expectativas para o mercado brasileiro mostrou que as taxas de juros futuros devem cair pelo menos 40 pontos-base, o dólar deve ceder cerca de 4% e Ibovespa deve subir 6%, considerando a mediana das estimativas.
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Alejandro Cuadrado, chefe de estratégia global de câmbio e América Latina do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, disse que, embora seja esperada alguma volatilidade antes do segundo turno, a magnitude da surpresa já deve levar a uma “reavaliação significativa” das perspectivas para o Brasil.
“O resultado do primeiro turno, algumas disputas pelos governos estaduais, incluindo São Paulo, e os resultados preliminares do Congresso melhoraram substancialmente a percepção do mercado sobre o Brasil e podem marcar o início de uma reprecificação mais ampla e sustentada dos ativos brasileiros”, disse.
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