Bloomberg — Em questão de três semanas, gestores de fundos multimercado passaram de comemorar alguns de seus maiores ganhos em anos para amargar perdas brutais e fazer um mea-culpa aos clientes.
As apostas otimistas que renderam ganhos extraordinários após o desempenho surpreendentemente forte de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, em 4 de outubro, implodiram depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno no domingo (25), contrariando praticamente todas as pesquisas e também os mercados de previsão.
Os ativos brasileiros são, de longe, os de pior desempenho nos mercados globais nesta semana, um selloff que atingiu em cheio uma indústria de fundos já fragilizada. Fundos multimercado macro perderam até 24% na segunda-feira, o pior dia da derrocada, segundo dados compilados pela Bloomberg. Para a indústria como um todo, foi o pior dia em cerca de nove anos.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Alguns dos maiores vencedores após o primeiro turno estiveram entre os mais atingidos, incluindo fundos administrados por Vista Capital, Legacy Capital, Ace Capital e Mar Asset Management.
Embora alguns tenham registrado uma leve recuperação, os retornos na semana ainda são negativos, segundo dados até quarta-feira (28), os mais recentes disponíveis.
Leia também: Se Lula derrapar na economia, 4º mandato pode fracassar, diz analista da 4intelligence
A aposta antes do segundo turno era de que Flávio buscaria reduzir os enormes déficits orçamentários do país, abrindo espaço para cortes de juros. Esse cenário derrubaria os juros futuros e impulsionaria as ações — especialmente as de empresas ligadas à economia doméstica, castigadas por anos de juros de dois dígitos. Com a entrada de capital estrangeiro, o real também se valorizaria.

Legacy e Ace reduziram essas apostas após o rali inicial, disseram na ocasião, mas continuaram expostas o suficiente para sofrer perdas acentuadas quando o trade desmoronou: o Legacy Alpha perdeu 8% na segunda-feira e um fundo da Ace caiu quase 9%, ambos após taxas, segundo dados compilados pela Bloomberg. O fundo Multiestratégia da Vista caiu 24%, enquanto o Mar Absoluto perdeu 15% e se desculpou aos clientes em uma carta vista pela Bloomberg News.
“Nos preparamos com grande rigor, planejamento, estudo e dedicação para um ano decisivo para a gestora”, disse a Mar, sediada no Rio de Janeiro, na carta. “Mas erramos. Jogo jogado.”
A segunda-feira forçou uma guinada nas posições, enquanto investidores se preparavam para mais um mandato de Lula. O presidente é visto como menos inclinado a enfrentar um déficit nominal superior a 9% do PIB e mais propenso a manter benefícios sociais e estimular o consumo, recorrendo principalmente ao aumento de receitas para reforçar as contas públicas. A preocupação dos gestores é que essa abordagem possa manter os juros elevados por mais tempo e reduzir o apetite por risco.
Leia também: Private equity e venture capital esbarram em juro alto para retomada após a eleição
Enquanto investidores aguardam sinais de Lula sobre seus planos fiscais, incluindo a escolha do ministro da Fazenda, o mercado brasileiro tem dificuldade para se recuperar.
O Ibovespa acumula queda de quase 18% na semana, mais do que apagando o rali registrado neste mês após o segundo turno. O dólar sobe mais de 8%, o pior desempenho entre as moedas globais no período, enquanto os juros futuros subiram mais de dois pontos percentuais nos vencimentos mais longos.
Indústria de fundos
A turbulência atingiu uma indústria de fundos que já vinha sob pressão após anos de resgates, à medida que juros persistentemente elevados levaram investidores a migrar para ativos considerados mais seguros. Apenas os multimercado registraram saídas líquidas de R$ 9,3 bilhões neste ano até setembro, prolongando uma sequência de quatro anos consecutivos de resgates.
“Se a indústria tradicional de fundos não piorar nos próximos 12 meses, vou me surpreender”, disse Artur Wichmann, CIO na XP, uma das maiores distribuidoras de fundos do país. “Ou a indústria se reinventa ou ela perde muita relevância, mais do que já perdeu.”

O selloff de segunda-feira atingiu os multimercados de forma generalizada. Uma cesta de fundos locais acompanhada pela Anbima caiu cerca de 3,9%, seu pior dia em mais de nove anos. Com isso, a alta acumulada no ano encolheu para 5,8% até terça-feira, abaixo do retorno de quase 12% do CDI usado como referência.
Leia também: Plano fiscal do novo mandato de Lula esbarra no trauma da crise econômica sob Dilma
Na Vista Capital, no Rio de Janeiro, João Landau também fez uma avaliação objetiva da dura reversão de segunda-feira.
“Ganhamos dinheiro no primeiro turno e perdemos no segundo”, disse Landau, fundador e diretor de investimentos da gestora. “No saldo, estávamos errados na nossa expectativa eleitoral”, afirmou, acrescentando que o fundo cortou “muitas posições” após o segundo turno.
Ricardo Denadai, CEO e sócio-fundador da Ace, em São Paulo, disse que a surpresa eleitoral provocou perdas relevantes nas apostas da gestora em bolsa, câmbio e juros, já que os movimentos do mercado foram maiores do que após o primeiro turno.
A Legacy não comentou.
O desempenho de Mar, Ace, Vista e Legacy, tanto durante o rali quanto no selloff de segunda-feira, se destacou entre cerca de 170 fundos brasileiros com gestão ativa, pelo menos R$ 200 milhões em ativos, um mínimo de 100 investidores e histórico de pelo menos seis meses.
Ao avaliar as duras perdas, João Braga, gestor de portfólio da Encore Asset Management, classificou a segunda-feira como o pior dia de seus mais de 20 anos de carreira. O fundo de ações da gestora despencou 32% após taxas, enquanto outros fundos da mesma categoria caíram mais de 40%.
O fundo estava “bem comprado” em ações quando o selloff começou, disse ele em seu vídeo mensal, publicado na quinta-feira. O posicionamento havia sido baseado nas pesquisas, nos cálculos da gestora a partir dos resultados do primeiro turno e em uma análise dos votos — elementos que, segundo ele, apontavam para uma probabilidade alta de vitória de Flávio.
“Obviamente eu não esperava nem de perto essa violência de mercado. Acho que ninguém esperava, mas veio.”
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Citi aponta petróleo e juros elevados como principais riscos à América Latina em 2027
EUA acolhem Flávio Bolsonaro e colocam relação entre Lula e Trump sob novo teste
Lula enfrenta pressão para reformar o Supremo por atuação de Alexandre de Moraes
© 2026 Bloomberg L.P.








