Telefónica vende operação na Argentina por US$ 1,25 bi. Mas acordo depende de Milei

Negócio entre as duas empresas ainda depende do aval do presidente da Argentina, que alertou que seu governo analisaria a transação diante dos riscos de um possível monopólio

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Bloomberg — A Telefónica concordou na segunda-feira em vender suas operações na Argentina para a empresa local Telecom Argentina por US$ 1,25 bilhão, embora o presidente Javier Milei tenha alertado imediatamente que seu governo analisaria a transação diante dos riscos de um possível monopólio.

A operadora de telefonia móvel espanhola assinou e fechou o acordo na segunda-feira, depois de três décadas no país, de acordo com um registro regulatório. A Telefônica vem trabalhando desde o final de 2019 para reduzir sua exposição à América Latina.

Logo após o registro, o governo de Milei publicou uma declaração anunciando que avaliará a venda, argumentando que ela colocará 70% do setor de telecomunicações do país sob o controle de um grupo. A análise antitruste marca a maior medida regulatória de Milei, que se orgulha de reduzir a burocracia e promover mercados livres.

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Milei tem vínculos com alguns dos executivos que perderam o acordo. Seu ministro das Relações Exteriores, Gerardo Werthein, é primo de Dario Werthein, que lidera a holding homônima da família, que supostamente competiu com a Telecom pelas operações da Telefônica.

Eduardo Eurnekian, ex-chefe de Milei durante sua carreira corporativa, também estava disputando a compra da Telefônica, segundo o jornal La Nacion.

A Telecom Argentina pertence em parte ao Grupo Clarin, a holding de um dos maiores jornais da Argentina, que Milei criticou no fim de semana, durante sua viagem a Washington, pelo que chamou de reportagem enganosa. Também é propriedade do financista David Martinez, entre outros acionistas menores.

A Telecom disse que financiou a aquisição com um empréstimo sindicalizado do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, Deutsche Bank, Banco Santander, bem como um empréstimo bilateral da filial argentina do Banco Industrial e Comercial da China.

Apesar do otimismo mais amplo dos executivos corporativos e dos investidores de Wall Street em relação aos esforços de Milei para reformar a economia sul-americana, a saída da Telefônica segue uma onda mais ampla de empresas multinacionais que deixaram o país sob sua supervisão, incluindo a Exxon Mobil.

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Além de uma série de acordos de energia e mineração, os investimentos de longo prazo também não se concretizaram, com as empresas preocupadas com a forma como o governo irá desfazer a rede de controles de moeda e capital do país.

A Argentina foi um dos dois primeiros países em que a Telefônica entrou quando iniciou sua expansão internacional na América Latina no início dos anos 90, juntamente com o Chile. Sua chegada à Argentina marcou um dos negócios mais emblemáticos da onda de privatizações do país na época, e a Telefônica suportou repetidas crises econômicas na Argentina.

As ações da Telefônica subiram até 0,6%, para € 4,26 em Madri, na terça-feira.

O presidente executivo Marc Murtra, nomeado pelo governo espanhol em janeiro tem acelerado um plano de reestruturação da empresa, com foco em parte da América Latina. Recentemente, a Telefônica buscou proteção contra falência para sua unidade peruana, em uma tentativa de reestruturar sua dívida, citando uma disputa de décadas com as autoridades fiscais no processo.

De acordo com relatos da mídia, a operadora está procurando vender suas operações no México e no Uruguai.

O presidente anterior, Jose Maria Alvarez Pallete, anunciou em 2019 um plano para reduzir drasticamente a exposição à América Latina, mas teve dificuldades para fazê-lo.

No ano passado, a empresa fez novos esforços para sair da Colômbia e divulgou conversas com a Millicom International Cellular SA para vender a unidade por US$ 400 milhões, mas nenhum acordo foi anunciado.

O governo espanhol, que detém 10% da Telefônica desde o ano passado, considera a Telefônica como a empresa mais estratégica do país e disse que queria que ela se tornasse uma campeã nacional.

O primeiro-ministro Pedro Sanchez disse em Davos que a operadora deve desempenhar um papel importante em diferentes aspectos da economia, incluindo o apoio aos planos de desenvolvimento de uma indústria de semicondutores na Espanha.

A Telefonica divulgará os lucros do ano inteiro na quinta-feira, e Murtra participará de sua primeira reunião com analistas e a imprensa como presidente da empresa.

-- Com a colaboração de Clara Hernanz Lizarraga.

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