Globo tem Ebitda de R$ 1,55 bi e pagará por oferta da Eletromidia com caixa, diz CFO

Manuel Belmar diz a jornalistas que o grupo tem caixa equivalente a mais de 2 vezes a dívida bruta e descarta captação para financiar a oferta para fechar o capital da empresa de mídia externa

Complexo de estúdios da Globo, em Curicica, zona oeste do Rio
04 de Abril, 2025 | 07:17 PM

Bloomberg Línea — A Globo Comunicação e Participações, maior companhia de mídia do Brasil, vai utilizar recursos próprios do caixa para pagar a OPA (oferta pública de ações) da Eletromidia (ELMD3), em um leilão programado para o próximo dia 28 de abril, segundo Manuel Belmar, diretor de Produtos Digitais, Finanças, Jurídico e Infraestrutura.

A operação, cujo edital foi divulgado no dia 27 de março, deve movimentar mais de R$ 980 milhões e mira a aquisição de 23,84% das ações em circulação no mercado (free float).

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A compra do controle da empresa líder nacional do segmento de OHH (Out of Home, mídia externa), que pertencia ao fundo americano de private equity H.I.G. Capital, foi aprovada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em dezembro.

A Globo, antes minoritária, elevou sua fatia acionária de 27,01% para 74,10%. Caso a OPA atinja seu objetivo, a participação da Globo pode alcançar até 95,06%.

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“Não precisamos de captação, pois temos uma dívida líquida negativa há muitos anos. Fechamos 2024 com um caixa de R$ 13,6 bilhões, mais de duas vezes a dívida bruta [R$ 6,6 bilhões]”, afirmou o CFO em conversa com jornalistas nesta sexta-feira (4), durante o International Academy Day, evento organizado em parceria com o Comitê do Emmy Awards, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro.

O executivo apontou que a Eletromidia é uma empresa “pouco alavancada”. Ao fim do quarto trimestre de 2024, a dívida bruta da empresa totalizou R$ 1,357 bilhão, enquanto a líquida atingiu R$ 846 milhões.

O nível de alavancagem (dívida líquida dividido pelo Ebitda ajustado) encerrou o ano em 2,0x, considerando um período de 12 meses, segundo o balanço da Eletromidia.

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O valor final da OPA ainda está em processo de atualização. A Eletromidia divulgou que o preço pode chegar a R$ 29,41 por ação, considerando R$ 27,3817 da parcela do fechamento e R$ 2,0283 da parcela contingente (earn out) em caso de ocorrência de certas situações.

Na apresentação do balanço do quarto trimestre, a empresa estimou um volume financeiro total de cerca de R$ 981,8 milhões para a OPA referente a 33,385 milhões de ações.

O período de adesão à participação da oferta, iniciado no último dia 27 de março, vai até o próximo dia 25 de abril. A liquidação da OPA está prevista para o dia 30 de abril.

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Em 2024, a Globo reportou um lucro líquido de R$ 1,99 bilhão, o que representou uma alta anual de 138%. O resultado foi favorecido pela valorização das ações da Eletromidia, além do crescimento de 8% da receita com vendas (R$ 16,4 bilhões).

O lucro líquido ajustado da Eletromidia somou R$ 198,335 milhões, uma alta de 24,7% em 12 meses, com margem líquida ajustada de 16,7%.

A geração de caixa operacional da Globo, medida pelo Ebitda, teve incremento de 26% em 12 meses, para R$ 1,55 bilhão em 2024. A margem de Ebitda da Globo cresceu 9% no ano passado.

“Não damos guidance, mas declaramos que nossa busca é recuperar a margem de dois dígitos que tínhamos antes de começar esse grande processo de transformação. Vamos chegar lá no tempo devido. A margem vai seguir subindo. Esse é nosso objetivo”, afirmou o executivo.

Segundo ele, o resultado financeiro, sob impacto de fatores como a valorização da fatia de 27% da Eletromidia, foi uma das razões de o lucro líquido ser maior que o Ebitda em 2024. Em 12 meses, a ação da companhia de OOH se valorizou R$ 63%.

A Globo comprou as ações da H.I.G. Capital por R$ 1,7 bilhão ao preço de R$ 29 cada uma, incluindo parcela contingente após a conclusão da OPA. Nesta sexta-feira, o papel fechou a R$ 30,34.

“Compramos por um preço e ação está hoje com um valor maior. Tudo isso convergiu para resultados fortes em 2024″, explicou Belmar, citando ainda a perfomance positiva de audiência de seus canais e de receita publicitária, que estão, segundo ele, em “tendência crescente”.

Perspectiva de crescimento

A influência da Eletromidia nos resultados da Globo se limitou à consolidação das receitas referentes apenas ao mês de dezembro, mas o executivo destacou o potencial.

“Acreditamos muito nesse negócio. A Eletromidia é complementar a tudo que já fazemos, tem boas margens e perspectiva de crescimento”, afirmou.

Ele disse que a Globo está vigilante quanto à disciplina de custos, enquanto busca construir novas fontes de receitas.

“Estamos ‘de olho no peixe e no gato’. Ainda estamos no início de 2025, que é muito desafiador por tudo que está acontecendo não só no Brasil como no mundo”, disse o executivo.

Foi uma alusão às tarifas norte-americanas aplicadas a produtos de parceiros comerciais como o Brasil, à tradicional cautela de investidores com o ciclo de alta dos juros para conter a inflação e aos riscos fiscais, em um ano anterior à disputa presidencial em 2026.

Análise da Fitch

Para a agência de classificação de risco Fitch, as margens da Globo devem permanecer na faixa de um dígito nos próximos dois anos, em virtude do ambiente desafiador para o setor e dos custos operacionais associados à expansão de sua plataforma de streaming, o Globoplay.

O cenário-base da Fitch considera uma receita líquida de R$ 17 bilhões em 2025, com margens Ebitda de um dígito alto. A Fitch atribuiu a recuperação do Ebitda ao renascimento das receitas de publicidade e às iniciativas de controle de custos.

“A Globo enfrenta intensa concorrência de outras plataformas por espectadores e anunciantes. O panorama da mídia foi afetado pela crescente fragmentação da audiência, devido a mudanças nas preferências dos consumidores por visualização sob demanda e over-the-top (OTT), além do aumento do número de novos participantes”, avaliou a Fitch em relatório assinado pelos analistas Johnny da Silva e Ricardo Junqueira em janeiro.

Para enfrentar as mudanças no setor e o declínio de seu negócio de TV tradicional, a Globo tem investido em eventos ao vivo, produção local, estratégia digital e serviços de vídeo sob demanda por assinatura da Globoplay, segundo os profissionais da Fitch.

“Os ratings da Globo se beneficiam de sua forte posição líquida de caixa, que cobre integralmente a dívida e lhe proporciona significativa flexibilidade financeira. A empresa possui uma das estruturas financeiras mais fortes da região. A Globo deve manter sólida posição de caixa ao longo do horizonte de rating, sem incorrer em dívidas significativas”, escreveram os dois analistas.

Eles reforçaram que a empresa possui participação de 34% na audiência de televisão, que atinge 37% no horário nobre e conta com diversos canais para distribuir seu conteúdo.

O Globoplay tem conseguido expandir sua base de assinantes por meio de investimentos em conteúdo, novas produções e combinação de parcerias e ofertas, que devem continuar desempenhando um papel estratégico, avaliou a agência no relatório.

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Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 29 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.