Bloomberg Línea — O anúncio da joint venture dos negócios de hospitais de Dasa e Amil em junho do ano passado veio fundamentado pela visão de que havia uma oportunidade de criação de uma rede não verticalizada que pudesse ser competitiva no mercado, com foco em gestão e visão de longo prazo.
Passados nove meses, os dois grupos - da família Bueno e de José Seripieri Júnior, o Júnior, respectivamente - chegaram ao closing da operação.
A Ímpar Serviços Hospitalares, nome originalmente da empresa de hospitais e oncologia da Dasa, passa a adotar a marca Rede Américas para todas as suas operações, que totalizam 25 hospitais e cerca de 4.500 leitos e que, em 2024, somaram estimados R$ 10,6 bilhões em receitas líquidas, segundo fato relevante ao mercado na terça-feira (1).
E as reações iniciais do mercado de saúde antes mesmo da conclusão do negócio mostram o acerto da decisão, segundo o CEO da Dasa (DASA3) e agora recém-nomeado CEO da Ímpar, Lício Cintra.
“Com a união, nós passamos a contar em hospitais com uma vantagem competitiva muito parecida com a que temos em diagnósticos nas praças em que escolhemos ser fortes: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A reação de fontes pagadoras [operadoras de saúde] veio de encontro a isso”, disse Lício Cintra em entrevista à Bloomberg Línea.
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“Conseguimos entregar uma solução praticamente completa, com capilaridade, e isso já é reconhecido: nos últimos seis meses temos visto algumas operadoras lançando produtos sem Rede D’Or [RDOR3], com foco basicamente nos nossos hospitais. As vendas tem sido crescentes e deslanchado”, disse o executivo.
Outro ponto fundamental, segundo ele, é a perspectiva de oferecer ao mercado uma rede de hospitais com essa capilaridade que não esteja ligada a uma operadora de saúde, evitando potenciais conflitos de interesse - para isso, buscou também endereçar a questão de governança (veja mais abaixo).
“A estratégia é bem clara: queremos ser uma rede de hospitais imparcial, sem favorecimento a nenhuma operadora e que pode atender a todas elas”, disse o CEO da Ímpar.
Segundo ele, essa percepção positiva do mercado acabou acelerando a melhora de resultados, que já vinha sob impacto de “pequenos projetos” adotados nos hospitais em busca de eficiência operacional, dentro da estratégia de evolução gradual trimestre a trimestre, sem “mágica”.
“Não vamos cair no erro de abrir ‘cem frentes’ e perder o foco. Temos um número administrável. Na medida em que um projeto de eficiência é concluído, abrimos outro. E assim contabilizamos melhoras mês a mês.”
O novo grupo de hospitais nasce com Ebitda proforma estimado de R$ 998 milhões em 2024, o que representaria um crescimento de 28% na comparação com o ano anterior, como reflexo da evolução de melhorias operacionais nos hospitais da Dasa incluídos na joint venture.
A alavancagem, por sua vez, é menor do que a anunciada em junho passado: 3,15x na relação da dívida líquida sobre o Ebitda, versus 5,0x na estimativa anterior proforma.
Além do aumento da métrica de geração de caixa operacional, houve um ajuste tanto no valor da dívida líquida transferida pela Ímpar para a joint venture (de R$ 3,85 bilhões para R$ 3,5 bilhões) como no caixa aportado pela Amil (de zero para R$ 350 milhões).
Para a Dasa, o closing da operação significa a redução dos R$ 3,5 bilhões citados em seu endividamento. O grupo controlado pela família Bueno deixa de consolidar a Ímpar contabilmente e passa a reconhecer o investimento e os resultados da mesma pelo método de equivalência patrimonial.
“Havia muita desconfiança no mercado quando o negócio foi anunciado, com um baita desafio de desalavancagem. Mas nós tínhamos muita confiança em nosso projeto de performance e conseguimos endereçar a questão da alavancagem sem precisar de dinheiro novo”, afirmou.
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Segundo o executivo, há um “mar de oportunidades” para avançar, principalmente nas frentes de supply (fornecedores) e comercial. “Estamos animados. Desde meados de janeiro, com a aprovação do Cade, conseguimos trabalhar com mais profundidade a busca de sinergias”, afirmou.
Em São Paulo, o novo grupo conta com hospitais considerados de excelência como o Nove de Julho (vindo da Dasa) e o Samaritano Higienópolis (Amil), além de outros reconhecidos como o Samaritano Paulista (Amil) e o Leforte Morumbi (Dasa); no Rio, conta com os de excelência Hospital São Lucas (Dasa) e Americas Medical City, que reúne o Vitória Barra e o Samaritano Barra (ambos Amil).
O novo porte da Ímpar vai favorecer também a frente comercial para enfrentar dois dos principais desafios do setor de saúde, os prazos de recebimento e as glosas (contestação de pagamentos).
“Estou com uma agenda muito intensa a partir de quinta-feira [dia 3] para levar esse posicionamento. Ou temos uma relação sustentável com prazos aceitáveis e índices de glosa corretos, que não seja algo arbitrário, ou não temos interesse em continuar atendendo”, afirmou.
O grupo não quis estimar para o mercado quais os valores esperados de ganhos de sinergias. Mas ele apontou para a perspectiva de evolução da margem Ebitda, que encerrou o ano de 2024 em 9% na estimativa proforma dos hospitais da joint venture.
“O principal concorrente [a Rede D’Or] tem 25% [de margem Ebitda]. Vamos chegar a 25%? Não. Os modelos são diferentes. Mas não é razoável achar que o nosso ponto de equilíbrio é 9%, 10%.”
O executivo disse que três ativos geradores de Ebitda - o Hospital São Domingos, no Maranhão, o Hospital da Bahia e a AMO - podem ser incorporados pela Ímpar após nova avaliação de cada caso, ainda que não façam parte do eixo prioritário de São Paulo, Rio e Brasília.
“Vamos olhar com calma, sem a pressão de fechamento do negócio, para avaliar se faz sentido para reforçar a nossa atuação no Nordeste e em oncologia, em que nascemos como a segunda maior rede do país. Temos uma margem de manobra em cima de três bons ativos.”
No anúncio da joint venture, a hipótese apontada havia sido a de venda dos ativos para ajudar na redução da alavancagem da Dasa, uma alternativa que não está descartada, disse Cintra.
Acordo de acionistas
O desfecho do negócio veio acompanhado também de anúncios relevantes na gestão e na governança na nova companhia de hospitais e oncologia, com um novo acordo de acionistas que busca alinhar interesses no longo prazo e sinalizar ao mercado a independência em termos de operadora.
Cintra ficará no comando da Ímpar de maneira definitiva, como havia sido sinalizado anteriormente e dada sua experiência ampla na gestão de negócios hospitalares - ele trabalhou em posições de liderança no Grupo São Francisco e depois na Hapvida.
Ele seguirá como CEO da Dasa, por outro lado, até 1º de julho, em um período de transição até que Rafael Lucchesi assuma o cargo - há doze anos na Dasa, o executivo comanda a unidade de negócios de medicina diagnóstica desde 2022 e segue com foco na execução como uma prioridade.
O conselho de administração será composto por nove integrantes, dos quais três indicados de cada lado - Amil e Dasa - e mais três independentes com experiência e atuação reconhecida no mercado: Flavia Buarque Almeida, Antonio Quintella e Pedro Wongtschowski.
Dulce Pugliese de Godoy Bueno será a presidente do conselho.
“Nós trabalhamos nos últimos meses para criar duas estruturas independentes, com duas diretorias executivas, com governança adequada, o que ‘quebra’ de certa forma a percepção de parte do mercado de que poderia haver ingerência grande dos dois sócios”, disse Cintra.
Racional do negócio
Ao fazer menção à competitividade em medicina diagnóstica, o CEO da Dasa e da Ímpar relembrou a visão e as motivações para o acordo com a Amil, sob o comando de José Seripieri Júnior.
Na avaliação das lideranças da Dasa, havia em diagnósticos um ativo bem posicionado estrategicamente, com fortalezas evidentes ao mercado na relação com fontes pagadoras e clientes, com capilaridade e eficiência na operação.
Em hospitais, por outro lado, havia uma avaliação positiva sob a ótica de cada unidade, em posicionamento de marca, satisfação e recorrência de clientes, mas havia dois incômodos, segundo Cintra: uma performance muito abaixo da média do setor, em razão de fatores como baixo nível de integração, processos não uniformizados, baixa cultura de ganho de escala e padronização de equipamentos etc.
“E o outro fator era correlacionado: em razão de contarmos com ativos que, individualmente, tinham o seu valor, mas, como rede, eram incompletos, que não entregava solução para uma fonte pagadora de forma autônoma, era muito difícil ter volume de fato de maneira perene”, afirmou.
De maneira mais ampla, o início da operação conjunta da Ímpar contrasta com o momento mais desafiador do segundo semestre de 2023, quando Cintra entrou para a Dasa, inicialmente como COO. Ele assumiu como CEO em janeiro de 2024.
“Naquele momento, em todo trimestre havia risco de quebra de covenant [cláusula de empréstimo que limita a alavancagem] e de vencimento antecipado das dívidas. Havia ativos ‘perdidos’, e ao longo do último ano nós sanemos, descontinuamos e vendemos”, relembrou o executivo.
“Passados um ano e três meses, tiramos a ‘faca do pescoço’ e podemos trabalhar com os times mais focados na operação, ao mesmo tempo em que continuamos a reduzir a alavancagem”, resumiu.
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