Gestores veem rali de moedas emergentes com mudança de direção do dólar

Recuperação improvável de divisas como o real em 2025 tem sido impulsionada pela visão de que as tarifas de Trump não serão tão severas quanto se imaginava

Sao Paulo
Por Vinícius Andrade - Nicolle Yapur - Carolina Wilson
27 de Fevereiro, 2025 | 03:17 PM

Bloomberg — As moedas de mercados emergentes têm registrado uma recuperação improvável no início de 2025, à medida que os investidores ficam mais otimistas diante de sinais de uma mudança de direção do dólar americano.

A gestora Ninety One espera que divisas do mundo em desenvolvimento se fortaleçam frente ao dólar, revertendo uma previsão feita no ano passado. A Lazard Asset Management também ficou otimista em relação à classe de ativos.

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A mudança de perspectiva ocorre quando moedas como o real e o peso colombiano registram ganhos acumulados no ano de mais de 6%. Dados de posicionamento compilados pelo Citi mostram que o apetite por moedas emergentes está no nível mais alto desde outubro.

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Os ganhos são sustentados por uma virada no dólar, que recuou diante de sinais de que as tarifas dos Estados Unidos prometidas pelo presidente Donald Trump podem ser menos severas do que o esperado.

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Preocupações iniciais com o crescimento dos Estados Unidos e perspectivas de estímulo fiscal na Europa também estão arrastando o dólar para baixo.

Para muitos operadores, a dinâmica lembra o início do primeiro mandato de Trump, quando os mercados emergentes subiram após o dólar reverter um acentuado rali pós-eleitoral.

“A configuração agora parece bem similar à de 2017 — quando Trump começou a falar sobre tarifas, mas elas demoraram muito tempo para acontecer”, disse Grant Webster, co-head de dívida soberana e moedas emergentes na Ninety One, em entrevista. “Parece que alguns dos grandes alicerces do dólar estão começando a virar.”

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É claro, aquele ano — que viu um indicador de moedas emergentes subir cerca de 11% — foi seguido por uma mudança drástica, pois o governo Trump transformou sua conversa sobre tarifas em realidade em 2018, desencadeando uma venda de moedas de nações em desenvolvimento.

O índice MSCI de moedas emergentes reduziu os ganhos acumulados no ano nesta quinta-feira, depois que Trump disse que as tarifas contra México e Canadá entrarão em vigor em 4 de março. Ainda assim, o índice sobe 1,1% em 2025, enquanto o índice Bloomberg Dollar Spot cai 1,3%.

Para Arif Joshi, co-head de dívida de mercados emergentes da Lazard, o cálculo mudou este ano com a abordagem mais comedida de Trump para a política comercial.

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Ele estima que o atual plano tarifário resultará em um aumento efetivo de aproximadamente 2% nas tarifas dos Estados Unidos em relação ao resto do mundo — muito abaixo das opções de dois dígitos sinalizadas no ano passado.

Isso pode levar a uma reversão do rali do dólar visto entre setembro e o início de janeiro, explicou ele.

Dados recentes sugerem que o otimismo está aumentando. O apetite dos operadores para carregar moedas de mercados emergentes atingiu seu ponto mais alto desde a eleição dos Estados Unidos, de acordo com um indicador compilado pelo Citi.

Um índice de posicionamento de moedas emergentes do banco subiu para níveis não vistos desde outubro de 2024. Quinze das 23 moedas rastreadas registraram compras líquidas no mês passado.

“Tanto hedge funds quanto investidores real money têm aumentado sua exposição a moedas emergentes nas últimas semanas”, disse Kristjan Kasikov, chefe global de soluções quantitativas em câmbio do Citi.

Carry atrativo

Moedas de países com altas taxas de juros, particularmente na América Latina, lideraram o movimento, com os operadores de carry trade se aproveitando de rendimentos mais altos.

Investidores que compraram uma cesta igualmente dividida de pesos colombianos e chilenos e o real brasileiro contra o dólar americano obtiveram um retorno total de aproximadamente 7,3% nas primeiras 40 sessões do ano. Esse é o melhor desempenho desde 2022 e o segundo maior em mais de uma década.

Ainda assim, essa é uma aposta ousada. O impacto da agenda de política econômica de Trump nas taxas de juros globais e no caminho do dólar continua incerto.

Além disso, a estratégia de carry trade sofreu um revés no ano passado, quando o colapso das posições financiadas em iene causou turbulência nas negociações em economias desenvolvidas e emergentes.

Como resultado, os investidores que embarcam no carry trade latino-americano agora têm financiado menos suas posições usando o iene.

Em vez disso, muitos estão mantendo posições vendidas contra o dólar e outras moedas asiáticas, disse Alejandro Cuadrado, chefe de estratégia global de câmbio e América Latina do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA), em Nova York.

Até agora neste ano, as oscilações nos mercados de moedas têm sido moderadas e bastante inferiores aos níveis observados por volta das eleições nos Estados Unidos, em novembro.

O índice ICE BofA MOVE — que mede as flutuações esperadas nos rendimentos dos títulos do tesouro americano, que podem ter amplos impactos na dívida e nas moedas dos mercados emergentes — negocia perto da mínima em quase três anos.

Para 2025, o BBVA recomenda uma posição comprada em uma cesta de moedas da América Latina com um underweight (posicionamento menor do que a média de referência, equivalente a venda) no peso mexicano. O banco também aposta contra uma cesta de moedas asiáticas — uma aposta que, além do México e de uma curta disputa migratória com a Colômbia, a região permanece relativamente fora do radar na batalha tarifária.

No fim do ano passado, as expectativas eram de um crescimento excepcional nos Estados Unidos, e havia preocupações significativas sobre as tarifas e poucas indicações na Europa de que o crescimento fosse surpreender para cima, disse Joshi, da Lazard.

“Cada um desses blocos se deteriorou este ano”, disse ele.

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