Bloomberg — As novas tarifas recíprocas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, devem atingir com mais força algumas das nações mais pobres do mundo. Isso coloca em risco suas indústrias de exportação intensivas em mão de obra e diminui uma das maiores vantagens econômicas dos EUA sobre a rival China.
O Camboja foi atingido com a maior tarifa para a Ásia, de 49%, nas taxas de Trump anunciadas na quarta-feira (3). A gigante da indústria têxtil Bangladesh recebeu uma tarifa de 37%, o Laos, 48%, e Lesoto, nação do sul da África, recebeu uma tarifa de 50%. Em Mianmar, onde um terremoto devastador na semana passada deixou mais de 3.000 mortos, os EUA impuseram uma tarifa de 45%.
“Ah, olhe para o Camboja, 97%”, disse Trump na Casa Branca, arrancando risadas ao apontar para o imposto que os EUA enfrentam da nação do Sudeste Asiático. “Eles fizeram uma fortuna com os Estados Unidos da América”, acrescentou Trump. O cambojano médio ganha cerca de US$ 6,65 por dia, de acordo com dados do Banco Mundial, menos de um quinto da média global.
A ação comercial pode infligir mais danos econômicos aos países mais pobres do mundo, em um momento em que os EUA retiraram a ajuda a vários deles. O governo de Trump cortou milhares de contratos de assistência importantes, que por décadas garantiram aos EUA uma presença em todo o mundo. O impacto disso já está sendo sentido em Mianmar, enquanto a China é vista rapidamente preenchendo o vazio em lugares como o Camboja.
“É um desastre”, disse Deborah Elms, chefe de política comercial da Fundação Hinrich. “Tarifas de quase 50% da noite para o dia serão impossíveis de administrar.”
Muitas dessas nações tinham acesso livre de tarifas aos EUA como países menos desenvolvidos, afirmou ela, acrescentando que eles podem recorrer a mercados na Europa, Japão e Austrália em vez da fraca demanda em regiões como a China.
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Os EUA calcularam as taxas com base em uma fórmula que divide o superávit comercial de um país com os EUA por suas exportações totais, com base em dados de 2024 do Bureau do Censo dos EUA. Em seguida, esse número foi dividido por dois, produzindo a taxa “descontada”.
Esse método fez com que Madagascar, um dos países mais pobres do mundo, recebesse uma tarifa de 47%. O golpe para o empobrecido Laos ocorre mesmo que o trabalhador tenha uma renda média de menos de US$ 6 por dia.
A decisão marca uma reviravolta na política comercial americana após a Segunda Guerra Mundial, que promoveu a integração econômica como um meio de ajudar as nações em desenvolvimento e promover os interesses de Washington no exterior. Em 2000, o então presidente Bill Clinton impulsionou a Lei de Crescimento e Oportunidade Africana, que ofereceu aos países elegíveis da África Subsaariana acesso isento de tarifas para mais de 1.800 produtos.
O ex-presidente George W. Bush expandiu essa lei em 2004 e promoveu iniciativas que ajudariam os países a levar seus produtos aos consumidores dos EUA.
Influência da China
Para muitas nações, particularmente na Ásia, a ascensão da China rompeu sua dependência econômica dos EUA. Muitas cultivaram laços com Pequim para atrair investimentos e financiamentos muito necessários para infraestrutura. Isso deixou muitos países menores pressionados a escolher um lado. Analistas questionaram a justiça dos cálculos tarifários dos EUA, dado o impacto desproporcional nas nações mais pobres.
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“Esta fórmula efetivamente pune países que dependem fortemente dos EUA como um comprador líquido de seus produtos, independentemente desse excedente ser motivado por práticas desleais ou apenas pela posição que ocupam na cadeia de suprimentos”, escreveu Tommy Xie, chefe de pesquisa macro da Ásia do Oversea-Chinese Banking. “Em particular, ela pune pequenos países em desenvolvimento, como o Camboja, que simplesmente não têm capacidade de comprar muito dos EUA”, concluiu Xie.
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