ANP paralisa perfurações de petróleo e levanta temor na indústria, dizem fontes

Executivos dizem à Bloomberg News que operações são suspensas por questões que normalmente não causariam interrupções; ANP afirma que só intervém em situações de risco grave e iminente

Plataforma de petróleo
Por Peter Millard - Mariana Durão
25 de Fevereiro, 2025 | 12:45 PM

Bloomberg — Reguladores brasileiros têm interrompido algumas operações de perfuração offshore por gigantes do petróleo como Petrobras e Equinor, o que complica projetos de exploração e produção em um momento crucial para os esforços do país em aumentar a produção de petróleo bruto.

Os atrasos na perfuração dificultarão os esforços do Brasil para reverter a queda na produção de petróleo do ano passado. Antes de 2024, o Brasil era uma fonte em ascensão de crescimento da oferta fora da Opep no mercado global de petróleo.

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Caso a produção continue estagnada em 2025, isso pode sinalizar à aliança Opep+ que ela pode começar a aumentar as exportações sem o risco de um excesso de oferta que derrube os preços.

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Embora algumas paralisações de perfuração tenham ocorrido devido a sérios problemas de segurança — uma falha na bomba em 14 de fevereiro provocou uma explosão a bordo de um navio-sonda da Valaris que operava para a Equinor —, outras foram suspensas por questões aparentemente menores que normalmente não causariam interrupções, segundo executivos entrevistados pela Bloomberg News que pediram anonimato para discutir informações sensíveis.

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Pelo menos outros três navios-sonda tiveram a operação paralisada nos últimos meses, de acordo com algumas fontes. As interrupções atrasam tanto a exploração de novos campos petrolíferos quanto a perfuração de poços auxiliares em descobertas mais antigas.

Duas sondas da Petrobras (PETR3; PETR4) estavam temporariamente suspensas em 20 de fevereiro, o que levou à criação de um grupo de trabalho para tratar melhor das preocupações regulatórias, informou a petroleira estatal em resposta a pedidos de comentário.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) afirmou, em resposta a questionamentos da Bloomberg News, que três sondas foram totalmente ou parcialmente paralisadas nos últimos dois meses, acrescentando que só intervém em situações de risco grave e iminente.

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Segundo a agência reguladora, as intervenções continuarão até que as operadoras confirmem a resolução dos problemas.

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Produção em dúvida

O Brasil produziu mais petróleo do que a maioria dos membros da Opep no ano passado, com um volume diário de 3,4 milhões de barris — o suficiente para representar cerca de 3% da oferta global.

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Paralisações não planejadas e atrasos em licenciamentos prejudicaram a indústria petrolífera brasileira em 2024.

A Agência Internacional de Energia (AIE), a Rystad Energy e a Wood Mackenzie previram um aumento na produção do maior produtor de petróleo da América Latina no ano passado, mas isso não se concretizou.

O aumento das paralisações de perfuração começou em dezembro e coincidiu com a saída do então chefe da ANP, segundo executivos que pediram anonimato para discutir informações não públicas.

As suspensões geraram preocupação no setor petrolífero do Rio de Janeiro, à medida que exploradoras e contratadas enfrentam a perspectiva de um ambiente operacional mais restritivo.

Um dos navios-sonda paralisados é o NS Carolina, parte da frota de quatro embarcações da Ventura Offshore Holding Ltd., segundo algumas fontes.

A Ventura confirmou, em um comunicado nesta terça-feira (25), que o navio-sonda recebeu uma ordem de interdição em janeiro, com a exigência de melhorias em certos procedimentos de emergência, e que a empresa espera que a interdição seja suspensa em breve.

No caso do NS Carolina, a ANP afirmou que houve falha na execução e implementação de um estudo de dispersão de gás, comprometendo a capacidade do operador da sonda de detectar vazamentos.

As ações da Ventura, negociadas em Oslo, caíram até 9,5% na terça-feira, para 22,40 coroas norueguesas, antes de recuperar parte das perdas.

Vale ressaltar que o Brasil é conhecido por ter reguladores independentes com padrões ambientais e de segurança mais rígidos do que outras regiões, incluindo o Golfo do México, nos EUA.

Campo da Equinor

A ANP suspendeu os trabalhos do navio-sonda Valaris DS-17 no campo de Bacalhau, da Equinor, até que a operadora demonstre que pode operar com segurança, segundo um relatório de incidente datado de 17 de fevereiro e revisado pela Bloomberg News.

Durante as operações de perfuração, uma tampa de 175 quilos se soltou de uma bomba, segundo o relatório.

Em um comunicado, a Equinor afirmou que o “incidente” não causou ferimentos ou vazamentos e não terá impacto significativo nas operações, acrescentando que esclarecerá as razões da falha para retomar as atividades.

A Equinor planeja iniciar a produção no campo de Bacalhau ainda neste ano e, na primeira fase do projeto, aumentar gradualmente para até 220.000 barris por dia.

-- Reportagem atualizada às 17h30 para incluir o posicionamento da ANP.

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