Bloomberg — O Brasil está transformando mais milho em combustível do que nunca, o que tem elevado os preços do grão e tornado as exportações mais incertas para o segundo maior fornecedor do mundo.
Os preços da commodity atingiram recentemente o maior nível desde 2022 no país, já que as usinas de etanol devem processar uma quantidade recorde de grãos nesta temporada.
O consumo deve crescer ainda mais nos próximos anos, já que novas plantas são iniciadas e a demanda por etanol recebe impulso de programas do governo.
Junto com a crescente necessidade de milho para ração animal, isso está mantendo os mercados de milho voláteis e criam a tensão de que o país terá menos grãos disponíveis para exportação em um futuro próximo.
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O mau tempo também apresenta um risco que pode impactar as colheitas, colocando mais pressão sobre as exportações.
“O Brasil estava de alguma forma caminhando para exportar mais milho a cada ano, mas em breve poderemos não ter mais essa tendência de crescimento”, disse Luiz Fernando Roque, coordenador de inteligência de mercado na Hedgepoint Global Markets.

Manter mais milho no mercado interno cria uma mudança importante nas expectativas para o papel do Brasil no mercado internacional, que aumentou nos últimos cinco anos.
O país atualmente exporta cerca de uma em cada cinco toneladas de milho enviadas para o mundo.
Os embarques nesta temporada devem chegar a 41 milhões de toneladas, de acordo com o departamento de agricultura dos EUA.
A demanda doméstica também é uma preocupação para os mercados globais de grãos, já que os embarques dos Estados Unidos correm o risco de serem prejudicados pela guerra comercial.
A China impôs uma tarifa de 15% sobre o milho americano como parte de sua retaliação às taxas impostas por Washington às exportações chinesas.
“A indústria do etanol é um importante impulsionador do consumo interno e tem contribuído para sustentar os preços”, disse André Sanches, pesquisador do Cepea.

Os produtores devem até mesmo segurar as vendas futuras, dado que esperam preços mais altos no futuro.
No estado de maior crescimento, o Mato Grosso, os agricultores venderam apenas 39% da próxima safra de inverno até o fim de fevereiro, de acordo com a consultoria AgRural.
Isso se compara a uma média de 48% nos últimos cinco anos. O Brasil cultiva a maior parte do milho durante o inverno.
Preços altos devem persistir mesmo com o país chegando à colheita de inverno no fim deste ano, disse André Pessôa, presidente do grupo de consultoria Agroconsult.
Ele espera que os preços médios nos mercados locais permaneçam acima dos do ano passado em pelo menos R$ 10 por saca de 60 quilos. As exportações podem sofrer se o clima seco acabar frustrando as estimativas atuais para maior produção de milho nesta temporada, ele acrescentou.
“Se a safra falhar devido a um problema climático, teremos um superávit de exportação menor”, disse Pessôa.
A Agroconsult vê o consumo doméstico total de milho subindo 9% este ano, para cerca de 96 milhões de toneladas. A consultoria acredita que o uso de milho em etanol é ainda maior do que algumas outras estimativas de mercado, em mais de 22 milhões de toneladas.
O clima é uma grande preocupação, pois o momento do plantio do milho não foi o mais ideal nesta temporada. Como a maioria das fazendas no Brasil cultiva o grão na mesma terra que a soja, a safra de milho de inverno deste ano foi afetada por atrasos no plantio e colheita da soja.
O risco é que grande parte da safra de milho esteja em fase final de desenvolvimento justamente quando as chuvas no Brasil tendem a ser menos frequentes.
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