Bloomberg Línea — A embalagem é semelhante à de marcas tradicionais encontradas nas prateleiras dos supermercados, e seu aspecto pode lembrar o do pó preto característico do café moído de menor qualidade e preço mais baixo. No entanto, seu conteúdo está longe das características do produto original. No jargão popular e entre associações do setor, essa imitação é chamada de café fake, ou cafake, um termo que designa produtos falsificados que tentam replicar a bebida autêntica.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Pavel Cardoso, afirma que a tentativa de imitar o café tradicional não é recente, mas a disparada no preço da saca de café agravou esse cenário.
Segundo Cardoso, é difícil identificar os componentes exatos do “café fake”, mas ele diz que o produto é feito a partir de impurezas no pó que é produzido a partir de resíduos do beneficiamento do café legítimo.
O beneficiamento consiste na remoção da casca do fruto e na extração do endosperma, que é o próprio café ainda verde, explica Cardoso.
Após a secagem, o grão é separado, enquanto os resíduos resultantes desse processo são descartados como impurezas.
A indústria recebe o café na forma de grãos verdes, prontos para as etapas de torra, moagem e empacotamento.
Hugo Caruso, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) disse, em nota, que não é possível afirmar, neste momento, se de fato trata-se de uma fraude praticada pelas empresas.
“Os produtos foram apreendidos e estão sendo analisados. Somente após a conclusão das análises poderemos afirmar se os produtos são realmente uma fraude”, disse Caruso, em nota enviada pela assessoria de imprensa do Mapa.
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Cardoso, da Abic, diz que esses produtos não têm uma categoria de registro na Anvisa, por isso ganharam a denominação popular de café fake.
“Muitas vezes, esses produtos [café fakes] contêm cascas, paus, pedras e sedimentos. Alguns chegam a ter aroma de café, mas, na realidade, são misturas de impurezas que são extremamente prejudiciais à saúde humana”, acrescenta o executivo à frente da entidade que representa a indústria de café à Bloomberg Línea.
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A Abic recomenda que os consumidores verifiquem as informações da embalagem para distinguir o café genuíno do café falsificado. Os cafés verdadeiros geralmente indicam a variedade do grão (arábica, robusta ou conilon) e especificam se são de tipo único na frente da embalagem.
Já as de café falsificado podem conter frases como: “pó para preparo de bebida sabor café”, em vez de informar que se trata de café torrado e moído. Além disso, o produto imita cores e traz elementos do café, como xícaras.
“Esses produtos se aproveitam do nome café, e utilizam alguns adereços que remetem diretamente ao produto original, como xícaras. É uma atitude criminosa, que busca enganar o consumidor”, diz Cardoso.
Outro sinal de alerta é o preço: enquanto um pacote de 500g de café legítimo é vendido por cerca de R$ 30, o “café fake” pode custar apenas R$ 13,99, menos da metade do valor do produto original.
A Melitta, uma das principais empresas do setor que teve a embalagem falsificada por uma das empresas que produzem o pó com sabor de café, disse, em nota à Bloomberg Línea, “que tem tomado as providências necessárias para defender a sua propriedade de marca e seus direitos”.
Por que o preço do café subiu
A alta nos preços do café tem sido impulsionada por fatores como mudanças climáticas nas principais regiões produtoras e o aumento da demanda global pelo grão. Em fevereiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) registrou um aumento de 11,63% no café moído.
Apesar da alta nos preços, Cardoso alerta que os valores nas prateleiras ainda não refletem totalmente os custos elevados da indústria, e novos reajustes devem ocorrer nos próximos 30 a 60 dias.
Enquanto a indústria nacional acumulou um aumento de 160% no custo do café em 2024, o repasse ao consumidor foi de 39%, disse o executivo.
Entre os membros associados da Abic, 51% são pequenos produtores, 21% são microempresas e 10% nanoempresas, enquanto apenas 12% são de médio porte e 6% são grandes indústrias.
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Competitividade do grão brasileiro no exterior
Com problemas nas safras dos principais países produtores de café, sobretudo o Brasil - que é o maior produtor do grão -, as indústrias e consumidores têm sido afetados pelas altas dos preços do grão.
Nos últimos três ciclos (2021/22, 2022/23 e 2023/24), a produção de café global ficou abaixo do nível de consumo, o que gerou déficits no balanço de oferta e demanda e impulsionou as cotações do grão. Na bolsa de Nova York, a variedade arábica chegou a ultrapassar recentemente o patamar de US$ 4 por libra-peso.
No Brasil, a colheita das últimas safras tem sido inferior ao potencial produtivo. Embora não se possa falar em quebras severas, a produção tem se mantido abaixo do esperado devido a questões climáticas, diz Heloisa Melo, analista e líder de soft commodities da Agroconsult à Bloomberg Línea.
A situação é agravada por problemas em outros grandes países produtores. O Vietnã, por exemplo, enfrentou uma safra muito abaixo do esperado em 2022/23, o que levou o consumo de grande parte de seus estoques para manter os níveis de exportação.
No ciclo seguinte (2023/24), a produção vietnamita seguiu abaixo do normal, mas sem estoques para compensar a demanda, o que reduziu as exportações.
Em 2024/25, a recuperação da oferta no país asiático ainda não é plena, com exportações ainda em níveis abaixo dos anos anteriores devido a atrasos causados por fortes chuvas no período de colheita e beneficiamento, explica a analista da Agroconsult.
Outros países como Indonésia e Colômbia também enfrentaram fenômenos climáticos que impactaram suas produções. A Indonésia sofreu perdas expressivas na safra 2023/24 e apenas agora começa a recuperar seu potencial.
Já a Colômbia, fortemente afetada pelos anos de La Niña, enfrenta dificuldades logísticas e tem apresentado volumes de produção inferiores ao necessário para suprir a crescente demanda.
A desvalorização do real em relação ao dólar, mais intensificada que em outras moedas dos principais países produtores, aumenta a competitividade do grão brasileiro no mercado externo.
Impacto nos preços
Apesar das dificuldades na produção, o consumo global de café continua em alta. Os principais mercados consumidores, como Brasil, Estados Unidos e União Europeia, seguem com aumento na demanda.
Apesar disso, a elevação dos preços pode impactar esse crescimento no médio prazo, caso os valores nas prateleiras subam consideravelmente.
Os estoques nos países consumidores também estão em patamares baixos. Na União Europeia, por exemplo, os estoques de segurança, que normalmente giram entre 100 e 110 dias de consumo, chegaram a cair para cerca de 50 dias recentemente, e atualmente estão em torno de 70 dias. Esse fator adiciona pressão ao mercado.
Em relação ao patamar de preços, Melo diz que valores abaixo de US$ 1,50 por libra-peso podem se tornar raros, a menos que a produção global se recupere e os impactos climáticos diminuam, o que não parece ser uma tendência no curto prazo, projeta a analista da Agroconsult.
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