‘Tenho apenas 85 anos’: Carlos Slim fala do futuro de seu império de US$ 82 bilhões

Em entrevista à Bloomberg News, empresário mexicano que já foi o homem mais rico do mundo reflete sobre trajetória de vida enquanto se mantém ativo e conta sobre novos projetos e sucessão

Homem grisalho
Por Andrea Navarro - Reto Gregori
05 de Abril, 2025 | 01:19 PM

Bloomberg — Carlos Slim parece incrivelmente relaxado para alguém que acabou de perder quase US$ 750 milhões.

Foi um dia ruim na bolsa mexicana, o que significa que foi um dia ruim no papel para Slim, o maior magnata do México - e da América Latina.

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Esse “soluço” no mercado no fim de fevereiro reduziu seu patrimônio líquido em cerca de US$ 720 milhões. Quando sua fortuna é medida em dezenas de bilhões e está vinculada aos preços das ações e aos movimentos da moeda, você aprende a ter uma visão de longo prazo.

Afinal de contas, estamos falando de Carlos Slim – o John D. Rockefeller do México. Não faz muito tempo, antes de Elon Musk e Jeff Bezos acumularem sua riqueza alucinante, Slim era a pessoa mais rica do planeta. Fique tranquilo, Slim está muito bem: hoje seu patrimônio vale US$ 82 bilhões, o que o coloca em 18º lugar no mundo, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index.

E assim, Slim reflete sobre um número que não tem um cifrão na frente: sua idade, que é 85 anos.

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O tempo passa para todos, e isso inclui o homem que o México conhece como “El Ingeniero” – o Engenheiro. Na ocasião, Slim caminhava cautelosamente em seu modesto escritório na Cidade do México, com uma bengala preta em uma das mãos e um maço de papéis na outra. Ele se acomoda em sua cadeira e esfrega o quadril.

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O lugar não é o que se poderia esperar, e seu famoso ocupante também pode não ser. A mesa está repleta de garrafas de água, anotações escritas à mão e demonstrativos financeiros.

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Centenas de livros – desgastados, com marcadores e orelhas – revestem duas paredes, do chão ao teto. Dezenas de outros estão empilhados sobre três mesas de plástico. Em meio à bagunça, há um par de estatuetas: Mickey Mouse e Minnie, vestidos como dançarinos de rumba.

Slim, sem gravata em um terno cinza, está mais lento e mais magro do que antes. Seu rosto está mais suave, as olheiras mais profundas, mas seus olhos escuros brilham de alegria. Ele está se divertindo.

“Os pintores não se aposentam. Muitas pessoas não se aposentam”, diz Slim em voz baixa e firme. “Se você se aposenta, você fica de fora.”

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Talvez o melhor ainda esteja por vir, diz ele.

“Tenho apenas 85 anos”, diz “El Ingeniero”.

É mesmo?

“Sim.”

Carlos Slim concede entrevistas apenas ocasionalmente, mas esta se estendeu por quase duas horas e meia.

Em sua mente estavam Donald Trump (Slim diz que é um fã, apesar dos comentários ofensivos do presidente dos Estados Unidos sobre o México); Elon Musk (ele concorda com suas opiniões sobre os gastos do governo, apesar das reservas sobre a abordagem de motosserra do empresário em Washington); e os próprios planos de Slim de dividir seu patrimônio entre seus muitos herdeiros (a família se dá surpreendentemente bem, diz o patriarca).

Slim acumulou sua riqueza de dinastia ao adquirir ativos subvalorizados, incluindo um monopólio telefônico estatal que permaneceu dominante por décadas, da mesma forma que Rockefeller prosperou com o controle do refino de petróleo durante a Era Dourada dos EUA.

Para muitos mexicanos, sua riqueza é fonte de orgulho nacional. Outros o veem como a personificação do capitalismo de compadrio – um operador experiente que entende o poder e não tem medo de exercê-lo.

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Slim está em toda parte no México.

Ele é proprietário da empresa de telefonia móvel Telcel, das lojas e restaurantes Sanborns, da Sears e até da Saks Fifth Avenue. Seu império inclui a empresa de telecomunicações Teléfonos de Mexico, ou Telmex, que ele adquiriu quando o México privatizou a empresa em 1990.

Slim chamou a atenção nos Estados Unidos em 2009, quando investiu US$ 250 milhões no New York Times, que na época passava dificuldades – um investimento lucrativo do qual ele saiu há muito tempo.

Torre telefônica ao fundo de uma rua

Mesmo agora, já em sua nona década de vida, “El Ingeniero” parece gostar do jogo.

“Um dia normal para mim é sempre anormal”, diz Slim, rindo. “Essa não é uma boa resposta?”

No México, onde o trabalhador médio ganha cerca de US$ 3.800 por ano, a história de Carlos Slim assumiu dimensões quase míticas. O pai de Slim, que originalmente se chamava Khalil Salim, chegou do Líbano em 1902, aos 14 anos, mudou seu nome para Julian e, com seu irmão José, abriu uma loja de produtos secos na Cidade do México, quando a Revolução Mexicana estava começando.

Julian sentia em seu corpo o conselho geralmente atribuído ao Barão Rothschild: compre quando houver sangue nas ruas. Em pouco tempo, no que se tornaria uma marca registrada da carreira de seu filho, Julian começou a comprar quando a multidão em pânico estava vendendo. Mais tarde, ele astutamente descarregou sua loja pouco antes do crash de Wall Street em 1929.

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Poupança aos 12 anos

Em 1952, quando Carlos tinha 12 anos, ele recebeu uma lição que levou para o resto de sua vida. Naquele ano, Julian deu a cada um de seus seis filhos uma caderneta de poupança do banco. Ele enfatizou a importância da família e da prudência financeira.

Em pouco tempo, o jovem Carlos não guardava apenas o dinheiro da mesada no banco – ele comprou ações do Banco Nacional do México. Os números pareciam falar com ele, e seu portfólio não parava de crescer. Ele participou de sua primeira reunião de conselho quando ainda era adolescente.

Em 1957, Slim entrou na Universidade Autônoma Nacional do México para estudar engenharia (daí o apelido). Ele era um excelente aluno – foi recrutado para ensinar otimização linear aos colegas de classe –, mas logo decidiu que seria nos negócios e nos investimentos que deixaria sua marca.

E ele conseguiu. Poucos chegaram a dominar uma economia como Slim faz no México. Ao longo das décadas, ele se aproveitou de uma crise após a outra para expandir seu alcance. Quando a crise da dívida latino-americana ocorreu na década de 1980, Slim investiu pesadamente em uma série de empresas como a Reynolds Aluminum, a General Tire e a British American Tobacco.

Durante a “Crise da Tequila” dos pesos, na década de 1990, ele transformou o setor de telecomunicações do México ao introduzir cartões pré-pagos para fazer chamadas na rede da Telcel. “Naquela época, pensamos que os telefones fixos ficavam dentro das residências, mas as pessoas carregam celulares com elas, e há mais pessoas do que casas, e foi aí que vimos o grande potencial”, disse ele.

Ao longo do caminho, Slim transformou a Telmex e a Telcel na América Móvil, que cresceu e se tornou uma potência regional que também opera na Áustria e em alguns países do leste europeu - e controla a Claro no Brasil. Recentemente, o governo autorizou que a participação de Slim na Telekom Austria aumentasse para 60% e ele está interessado em comprar as ações adicionais, disse.

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Império com 300 empresas

Atualmente, Slim e seus herdeiros controlam cerca de 300 empresas, incluindo seis empresas de capital aberto – América Móvil, Grupo Carso, Grupo Financiero Inbursa, Minera Frisco, Impulsora del Desarrollo y el Empleo en America Latina (Ideal) e Operadora de Sites Mexicanos (Telesites) – que respondem por cerca de 15% do valor do mercado de ações do país.

Uma coisa que Slim não conseguiu obter no México foi uma licença de TV por assinatura. O órgão regulador de telecomunicações proibiu suas empresas de adquirirem uma licença, devido ao seu domínio no setor. “Mas isso nos tornou mais agressivos no streaming”, diz ele. “Há mais o que fazer lá, como oferecer mais esportes ao vivo, o que a Netflix está começando a fazer. As pessoas gostam disso.”

Quinze presidentes ocuparam o grandioso Palácio Nacional desde que Slim nasceu, há 85 anos. Hoje, à medida que o presidente Donald Trump refaz a ordem global de Washington – e, mais uma vez, ataca o México em relação à imigração, ao comércio e muito mais –, até mesmo “El Ingeniero” precisa navegar em um cenário político em constante mudança.

Na década de 1990, a reputação de Slim foi prejudicada por sua associação com o presidente Carlos Salinas de Gortari, que se tornou sinônimo de fraude e corrupção.

Salinas lhe vendeu a concessão da Telmex em um negócio que seria analisado e questionado por décadas, embora Slim sempre tenha afirmado que agiu de forma transparente e venceu um leilão público de forma justa, em parceria com as respeitáveis operadoras Southwestern Bell e France Telecom.

Mais recentemente, Slim pareceu lidar habilmente com o populista Andrés Manuel López Obrador, que inicialmente entrou em conflito com os líderes empresariais: Slim investiu no Trem Maia de López Obrador, no valor de US$ 30 bilhões, um projeto controverso que conecta centros turísticos como Cancún às selvas e sítios arqueológicos do sul da Península de Yucatán.

Dois homens de cabelos grisalhos

Até o momento, Slim está impressionado com Claudia Sheinbaum, a primeira mulher presidente do México, que recebeu elogios pela maneira como tem lidado com o inconstante Trump. Ele fala com Sheinbaum a cada poucos meses e, ocasionalmente, troca mensagens com ela.

“A presidente é boa, ela trabalha muito”, diz Slim sobre Sheinbaum. Diferentemente de López Obrador, que fez questão de limitar quando, onde e como as empresas poderiam investir em setores importantes como o de energia, Sheinbaum parece entender que as empresas têm um papel a desempenhar. “Ela entendeu que precisa de investimentos do setor privado”, diz Slim.

Investimentos em energia

A energia, um dos principais focos de Trump, também está na mente de Slim.

Em 18 de março, Sheinbaum confirmou que a gigante estatal de petróleo do México, a Petroleos Mexicanos, ou Pemex, estava em negociações com empresas de propriedade de Slim sobre um investimento em dois dos campos de petróleo bruto e gás natural mais promissores do país.

Slim já está envolvido no país, tendo comprado 80% da Talos Mexico, o que lhe deu acesso a um megacampo de petróleo conhecido como Zama. Sheinbaum está agora falando sobre novos tipos de parcerias entre o Estado e o setor privado – e Slim está pronto.

“Ainda não definimos como vamos operar Zama”, diz ele, explicando que o campo fica bem abaixo do nível do mar e as opções que as empresas estudam para chegar até ele. Ainda assim, diz ele, “estamos pensando seriamente em aumentar nossa atividade petrolífera”.

Entre outras coisas, ele também aposta que a abordagem “Drill, Baby, Drill” de Trump acabará compensando um de seus investimentos nos EUA: a refinaria PBF Energy, cujas ações caíram drasticamente no último ano.

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Quanto a Trump, Slim está cautelosamente otimista.

Sim, a economia mexicana – e, por extensão, os negócios de Slim – poderão sofrer se Trump levar adiante suas tarifas prometidas [a reportagem foi publicada pela Bloomberg News antes do anúncio das tarifas recíprocas]. Além disso, Slim diz que os EUA precisam controlar os gastos do governo, investir em indústrias de alto valor do século XXI e finalmente enfrentar a ascensão econômica da China.

Os EUA não têm outra alternativa a não ser mudar a forma como fazem as coisas”, diz Slim. O esforço caótico de Musk para cortar funcionários federais e departamentos inteiros é perturbador – “acredito que ele fez um trabalho ruim”, diz Slim sobre Musk –, “mas esse déficit é uma loucura”.

Slim acredita que Trump está recebendo bons conselhos e que está ciente de que o mundo está se integrando sem os EUA, e é por isso que ele usa as tarifas como tática de negociação.

“O que é bom no presidente Trump, e isso é realmente admirável e inteligente, é que ele sabe o que está acontecendo no mundo”, diz ele. Ele acredita que as tarifas serão temporárias.

Não é fácil entrevistar Slim de forma sucinta.

Sua mente está repleta de detalhes e dados que ele precisa compartilhar para defender um ponto de vista. Uma pergunta sobre o poder da China hoje o leva de volta à década de 1970, momento em que ele lista os erros cometidos por Mao Tsé-Tung no final de sua vida.

Ele retira de uma pasta de papel manilha documentos impressos com estatísticas econômicas de décadas e os analisa em detalhes minuciosos. Estudante de história, ele acredita que as forças que moldam nosso mundo estão profundamente enraizadas no passado, fazendo com que cada resposta pareça uma viagem através das décadas.

Ele é um grande fã de beisebol e sabe recitar estatísticas de décadas atrás sobre seus rebatedores favoritos.

Sem dividendos para a família

Ao longo dos anos, Slim também refletiu profundamente sobre a ascensão e a queda de impérios empresariais.

Com sua esposa Soumaya, que faleceu em 1999 de uma doença renal, Slim tem três filhos, três filhas e 23 netos. Isso representa um grande potencial para disputas e batalhas de sucessão. Por isso, “El Ingeniero” tenta garantir que a família esteja em primeiro lugar, reunindo todo o clã para almoçar todas as quartas-feiras.

“Não é obrigatório, mas todos comparecem”, diz ele.

A maioria dos filhos, bem como alguns de seus cônjuges, trabalha nas empresas da família, de modo que as linhas de comunicação já estão claras para um futuro sem Slim.

Seu filho mais velho, Carlos, é o presidente do conselho da América Móvil, enquanto um genro, Daniel Hajj, é o CEO. Marco Antonio é o presidente do conselho da Inbursa, e Patrick é o CEO do Grupo Sanborns. As filhas Soumaya, Vanessa e Johanna lideram alguns dos empreendimentos filantrópicos e artísticos do grupo.

Atualmente, o título oficial de Slim é de presidente emérito da América Móvil. “Meu trabalho é principalmente ver se algo não está indo bem, corrigi-lo e, se algo está indo bem, desenvolver esse potencial”, afirma.

Seis netos agora trabalham para ele em alguma função, disse ele. “Não há nenhuma obrigação de que eles trabalhem no grupo, é só se quiserem”, segundo ele.

Se você trabalha para o vovô Slim, você entende que faz parte de algo maior, e ninguém recebe tratamento especial (exceto por um presente especial ao se casar).

Todos os netos ganham o mesmo salário – “não importa onde estejam” – e recebem uma participação de 3% na holding de capital fechado da família quando completam 18 anos. Não há dividendos, portanto as gerações mais jovens não se acostumam a viver de lucros redistribuídos.

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“É por isso que ela cresceu tanto”, diz Slim sobre a holding, Control Empresarial de Capitales. Ele criou a empresa três meses antes de se casar, conta.

Quando chegar a hora, a fortuna de Slim será dividida entre seus filhos em uma quantia proporcional ao número de filhos que cada um tiver, conta.

Um dos investimentos mais lucrativos da holding nos últimos anos foi o New York Times, que pagou seu empréstimo de US$ 250 milhões no início de 2011. Ele exerceu os bônus de subscrição que lhe foram concedidos no negócio em 2015 e começou a vendê-los meses depois.

Mas o negócio teve um efeito residual persistente, muito depois de Slim ter se desfeito totalmente do negócio. Devido, em parte, às teorias de conspiração que circulam nas mídias sociais, as pessoas ainda pensam que ele é um acionista importante (mas ele não é) e que tem alguma influência sobre o que o jornal escreve (mas ele não tem).

“Eles são loucos porque toda vez que o New York Times diz algo, sempre pensam que sou eu, mas não temos nenhum interesse, nenhuma influência, nunca pedimos nada”, diz ele.

Recentemente, Musk republicou afirmações falsas de outro usuário do X de que Slim ainda era um dos principais proprietários do Times e também o acusou de estar ligado ao crime organizado, o que provocou uma repreensão de Sheinbaum, entre outros.

A polêmica aconteceu na mesma época em que a América Móvil divulgou que havia abandonado um plano de trabalhar com a SpaceX para oferecer acesso à internet em áreas rurais. Slim disse que essa foi apenas uma decisão comercial relacionada às regras do governo para os requisitos de cobertura.

Apesar da dor de cabeça, Slim não se arrepende muito do acordo com o Times. Na verdade, ele só gostaria que a empresa não tivesse deixado escapar outra oportunidade lucrativa.

“Eles fizeram algumas operações que não conhecíamos e que foram muito ruins”, disse ele, referindo-se ao fato de o Times ter comprado o The Boston Globe por US$ 1,1 bilhão e depois tê-lo vendido por US$ 70 milhões.

“Eles costumavam ter o time do Red Sox e o estádio e depois o venderam muito barato”, disse ele. “Teria sido mais interessante comprar isso.”

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