Por que este CIO com R$ 35 bilhões sob gestão está cauteloso com o crédito privado

Em entrevista à Bloomberg Línea, Renan Rego, sócio da G5 Partners, explica por que tem preferido uma alocação menos arriscada em um momento de grande demanda por crédito privado

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Bloomberg Línea — O Brasil sempre foi o país da renda fixa, e, em momentos de juros altos, a inclinação para essa classe de ativos ganha ainda mais força. A estrela da vez é o crédito privado, que tem potencial de acrescentar um retorno extra ao portfólio e foi o grande destaque de captações no último ano.

O forte fluxo de capital para esses fundos, no entanto, pode tornar o investimento menos interessante. É o que defende Renan Rego, sócio e Chief Investment Officer (CIO) da G5 Partners, gestora e multifamily office com R$ 35 bilhões em ativos.

Rego avalia que a procura pelo crédito privado exerce uma pressão técnica do fluxo comprador. “O inflow pressiona o gestor a fazer uma alocação em crédito privado, em um estoque que aumenta a cada mês mas, ainda assim, tem um número finito de opções. O capital novo gera então uma compressão dos spreads”, afirmou em entrevista à Bloomberg Línea.

Números dos últimos meses mostram a força desse movimento. Ao longo de 2024, os fundos de investimentos no país tiveram a primeira captação líquida positiva em dois anos graças à força dos produtos de renda fixa, que receberam R$ 356,7 bilhões no ano passado nos cálculos da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

E dentro da renda fixa, o crédito privado se destacou. Os fundos do segmento com 50% a 70% de crédito privado em carteira receberam a maior entrada líquida entre janeiro e novembro do ano passado, em um total de R$ 113,3 bilhões.

Entre as alternativas para evitar a pressão do inflow, estão aumentar o caixa do fundo ou mesmo fechar o produto para novas captações. Mas o que se vê no mercado é o contrário.

O número de fundos em crédito privado cresceu para 2.070 produtos em 2024 – alta de 49% em relação ao ano anterior. Em relação ao patrimônio, os fundos de crédito privado respondem atualmente por 12% da indústria de fundos, dois pontos percentuais a mais que o registrado em 2023.

“Existem muitos bons gestores que estão sendo mais seletivos e aumentando o caixa nesse momento. Mas gostamos também de fazer alocações próprias para evitar esse incentivo perverso ao gestor de estar alocado”, afirma Rego.

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Alocação

As 300 famílias que são atendidas pelo multifamily office da G5 Partners são, em geral, de perfil moderado para investir. Rego defende que há grande variação caso a caso, mas a maioria delas prefere manter uma alocação relevante no Brasil.

A renda fixa nacional é a fatia mais relevante entre os investimentos atuais, com apostas em títulos públicos e nos chamados “títulos óbvios”: dívidas de grandes bancos, de empresas muito sólidas, especialmente em setores defensivos. São títulos high grade, da classificação AAA ou AA+, as mais altas do mercado.

“Estamos no aspecto menos arriscado do crédito privado. Entendo que ele impacta pouco [em retornos], ainda mais num momento de desvio padrão abaixo do histórico. Mas eu prefiro ser menos remunerado, do que tomar mais risco e ter uma remuneração um pouco maior”, disse.

Rego vê ainda boas oportunidades em ativos ilíquidos, como private equity, venture capital e distressed assets. “Toda essa indústria está com muita oportunidade e talvez com pouco capital para investir. Isso acaba gerando uma assimetria super interessante, com os yields propostos dos investimentos melhorando bastante”, ressaltou.

A renda variável, por outro lado, segue preterida mesmo com a bolsa perto do maior desconto em 10 anos, nos cálculos da G5. “O problema é o custo de oportunidade: o CDI é muito alto. Então, ficar bolsa é um ativo complexo em um país volátil como o Brasil”, afirmou.

Ainda assim, o CIO defende que as famílias devem ter alguma exposição à bolsa nacional por questão de diversificação.

O gestor aponta dois cenários que podem se desenhar para os ativos brasileiros. Por um lado, a aproximação das eleições em 2026 pode gerar uma alternância de poder que funcione como um gatilho de alta para recuperação dos preços dos ativos.

Por outro, a manutenção do viés atual faria com que os ativos ficassem ainda mais baratos do que já estão. “Falar de dominância fiscal saiu de moda nos últimos meses, mas as pessoas vão se lembrar quando tivermos a primeira realização na bolsa”, disse.

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Nos Estados Unidos, o cenário também é incerto. A alta volatilidade é a marca da gestão do presidente Donald Trump, que assumiu no final de janeiro e tem, desde então, implementado uma guerra comercial de tarifas que assusta os investidores.

Rego já esperava certa volatilidade nas ações americanas e mantém os Estados Unidos como principal destino offshore dos recursos de seus clientes. Porém, carregando uma posição menor em equities do que vinha fazendo nos últimos anos.

“Continuamos achando que é a melhor bolsa para se estar a longo prazo. Mas estamos neutros: não seria surpreendente se houvesse uma correção ainda maior nos ativos”, afirmou.

O retorno para a média histórica exigiria uma correção acima de 20% nos cálculos de Rego. “Não vemos nenhuma sinalização de que isso vai ocorrer, é apenas disciplina estatística”, acrescentou.

A visão é mais otimista para a renda fixa americana, especialmente nos ativos alternativos como private credit, no qual fundos de private equity, hedge funds e gestoras oferecem produtos estruturados de crédito sem intermediação bancária.

“É uma indústria que vem crescendo muito nos últimos 10 anos. Estamos otimistas com a renda fixa nos EUA, especialmente nesse segmento, que é onde estamos mais overweight”, disse.

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