Bloomberg Linea — Cofundador da maior gestora de venture capital da América Latina, a Kaszek, Hernan Kazah tem uma visão construtiva para o futuro das empresas de tecnologia da região. E acredita que as mudanças geopolíticas em curso, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca e a escalada da guerra comercial da maior economia do mundo com a China e outros parceiros, podem beneficiar a região.
Trata-se de processo gradual, adverte, mas que pode contribuir para a retomada dos investimentos em startups. Nesse cenário, novas oportunidades continuam a ser abertas para negócios.
“A perspectiva de rebalanceamento da cadeia de suprimentos vai ajudar a América Latina, mesmo com um eventual aumento das tarifas”, afirmou Kazah em entrevista à Bloomberg Línea.
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“Além disso, a região está muito bem posicionada em commodities, com uma demanda forte, e em temas como energia, uso de IA [Inteligência Artificial] e em toda essa parte de economia verde e sustentabilidade, que é algo no qual a região tem um destaque quase único no mundo, e o Brasil ainda mais.”
Segundo o experiente investidor, essas perspectivas favorecem o mercado de empresas de tecnologia.
“Nós estamos bastante otimistas com fintechs, mas na área de B2B, e também em infraestrutura”, afirmou Kazah sobre mercados que podem ser destravados nos próximos anos.
Os investimentos em climate techs também estão no radar da gestora. “A única maneira de resolver esse problema é com tecnologia, não será com a diminuição do consumo”, disse o investidor.
A Kaszek, com mais de US$ 3 bilhões em investimentos, está com dois novos fundos com quase US$ 1 bilhão para aportar capital em startups da região. Metade do capital deve ser investido em empresas no Brasil, o seu principal mercado. Outros 25%, no México, e o restante, dividido pelos demais países da região.
São US$ 540 milhões para investimentos em startups em early stage, no Kaszek Ventures VI, e US$ 435 milhões para empresas em late stage, no Kaszek Ventures Opportunity II.
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Ele criou a Kaszek em 2011 com Nicolas Szekasy, ambos cofundadores do Mercado Livre ao lado de Marcos Galperin. “Está claro também que será um governo mais pró-negócios e pró-M&As”, disse em referência à abordagem de Trump na maior economia do mundo.
De acordo com Kazah, a grande mudança no mercado de capitais deve se consolidar em 2026, mas o movimento já deve ser percebido de maneira mais contundente no fim de 2025.
Depois de um ciclo de ampla liquidez de recursos entre 2020 e 2021, quando chegou os aportes chegaram US$ 16 bilhões, o mercado de venture capital na região ensaia uma recuperação.
Em 2024, as captações de startups em LatAm chegaram a um total US$ 4,60 bilhões por meio de equity, o que representou um avanço de 23% na base anual, segundo dados do Sling Hub com o Itaú BBA.
Segundo o investidor, em meio ao acirramento da disputa entre as duas maiores economias do mundo, a América Latina pode se beneficiar da proximidade com os Estados Unidos.
E, por outro lado, também com a China, que deseja encontrar novos mercados, uma vez que os seus produtos e serviços terão menor acesso ao território americano.
“Os chineses já estão olhando outros mercados. Estão muito ativos na África, obviamente na Ásia, mas vejo que estão sendo mais ativos também na nossa região. A nossa visão é positiva. Dentro disso, a tecnologia é um capítulo à parte e a nossa visão ainda é muito mais positiva”, afirmou.
Dados da ONU mostram a força da nação asiática como o principal parceiro comercial dos países da região - com exceção em países como Colômbia e Equador, que mantêm os EUA como o principal parceiro. Em 2023, a China foi o destino principal das exportações da América Latina, com um déficit de US$ 124 bilhões.
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A aproximação entre a região e a segunda maior economia do mundo também acontece por meio de investimentos crescentes na região, com projetos de infraestrutura, logística, energia renovável e mineração, além dos setores automotivos e telecomunicações, mais recentemente.
De acordo com o Global Development Policy Center (GDP), da Universidade de Boston, entre 2019 e 2023, a China alocou na região US$ 21 bilhões em investimentos. Pouco mais de uma década atrás, entre 2008 e 2011, o valor era de US$ 5,8 bilhões.
Após um período de concentração maior no Brasil, os recursos estão mais diversificados e direcionados aos países voltados para o Oceano Pacífico, como Chile e Peru, e ainda o México.
Os investimentos chineses no Brasil de 2007 e 2023 somaram US$ 73,3 bilhões em termos de estoque, como resultado de 264 projetos confirmados, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).
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