Bloomberg Línea — A Justiça de São Paulo deu três dias para que o empresário Carlos Wizard Martins, uma das pessoas mais ricas do Brasil, pague uma dívida de R$ 8,2 milhões com o Banco XP, que pertence à XP Inc (XP).
Em despacho deste domingo (23), o juiz Carlos Eduardo Borges Fantacini, da 26ª Vara Cível de São Paulo, atendeu a pedido feito pela XP e intimou Wizard e a Orion Consultoria Empreendimentos e Participações Ltda, que tem o empresário como sócio, para que efetuem o pagamento. Wizard tem ainda 15 dias para recorrer da execução ou para pedir o parcelamento do débito.
Wizard e a Orion também devem, segundo a sentença, indicar em cinco dias quais são e onde se encontram os bens sujeitos à penhora e seus respectivos valores, com prova documental.
A intimação atende a uma ação de execução de título extrajudicial movida pela XP, que cobra uma dívida de R$ 8.221.119,81 da Orion e de Wizard com o Banco XP. A ação, à qual a Bloomberg Línea teve acesso, foi ajuizada na última sexta-feira (21) na 26ª Vara Cível de São Paulo.
Wizard é um dos empresários com atuação no ramo de franquias mais conhecidos e bem-sucedidos do país. O seu patrimônio, junto com a família, foi recentemente estimado em R$ 3,4 bilhões pela Forbes.
Ele comanda atualmente o grupo Sforza, holding estabelecida após a venda da escola de idiomas Wizard e do grupo educacional Multi ao britânico Pearson por R$ 1,7 bilhão em 2013 e que detém as marcas esportivas Topper e Rainha e as redes Mundo Verde, KFC, Taco Bell e Pizza Hut no mercado brasileiro.
Procurada pela Bloomberg Línea, a Sforza Holding, grupo de investimentos do empresário Carlos Wizard Martins, disse estar com dificuldades para administrar as suas dívidas. Em nota enviada na terça-feira (25), a holding disse que atua em setores “severamente afetados pela pandemia de Covid” e que contratou uma consultoria para reestruturar os débitos de curto e médio prazos.
As renegociações de dívida estão sendo tentadas “com todos os bancos com os quais a Sforza mantém operações de crédito”. A empresa não informou o valor total de seus débitos.
De acordo com o comunicado, a Sforza investe nas áreas imobiliária, de gestão de ativos e private equity. Além dos impactos da crise da pandemia, disse a holding, seus negócios também foram afetados pela alta das taxas de juros a partir do segundo semestre de 2021, o que aumentou o valor total das dívidas.
Ação
A ação de execução é contra a Orion Consultoria Empreendimentos e Participações Ltda, decorrente de um empréstimo de R$ 30 milhões, formalizado em 22 de abril de 2021 por meio de uma CCB (Cédula de Crédito Bancário). Wizard, um dos sócios da Orion, figura como devedor solidário na CCB.
O empréstimo previa originalmente o pagamento da dívida por meio de 18 parcelas mensais de R$ 1.764.467,13, totalizando R$ 31.760.409,24 ao fim do período. Uma das cláusulas estabelecia que o eventual não pagamento nos prazos fixados implicaria o vencimento antecipado da dívida remanescente.
Na ocasião, em garantia ao pagamento das prestações estabelecidas na CCB, a Orion ofereceu ao Banco XP - como alienação fiduciária - uma Cédula de Depósito Bancário no valor de R$ 15 milhões.
Novos aditivos alteraram o chamado Custo Efetivo Total da operação, que inclui a soma de todos os encargos, e o valor das parcelas mensais remanescentes - esta alteração aconteceu em março deste ano.
Segundo os autos da ação, a parcela que venceu em 21 de setembro de 2022 não foi paga, o que levou à aplicação da cláusula de vencimento antecipado da dívida remanescente.
“Em razão disso, em 18 de outubro de 2022, o Banco XP enviou 2 (dois) comunicados à Orion, para lembrá-la de que (i) a parcela com vencimento em 21 de setembro de 2022 já estava vencida e precisava ser imediatamente paga; e (ii) e existia uma outra parcela a vencer em poucos dias (em 21 de outubro de 2022), que deveria ser adimplida na data acordada; tudo sob pena de serem tomadas as providências cabíveis e previstas na CCB”, aponta a ação de execução movida pelo Banco XP.
“Lamentavelmente, no entanto, a Orion ignorou por completo a mensagem enviada pelo Banco XP e nunca a respondeu. Diante disso, na data de hoje [21 de outubro], o Banco XP declarou o vencimento antecipado de todas as parcelas em aberto da CCB”, aponta a petição.
O Banco XP executou as garantias oferecidas em contrato, mas elas não foram suficientes para cobrir toda a dívida remanescente: ficou em aberto o valor acima citado de R$ 8,221 milhões, motivo da ação de execução de título extrajudicial.
Segundo fontes do mercado, que pediram anonimato porque o assunto é privado, empresas de Carlos Wizard Martins têm dívidas na casa de dezenas de milhões de reais com outros bancos. O seu patrimônio está concentrado na pessoa física, e a razão para o não pagamento da dívida com o Banco XP seriam dificuldades de liquidez - ou seja, para transformar ativos em dinheiro.
Entrevista recente à Bloomberg Línea
Carlos Wizard concedeu uma entrevista à Bloomberg Línea há dois meses, em agosto. Na ocasião, comentou a eleição presidencial e explicou o seu afastamento da política e o foco nos negócios. “Vi que o Brasil é muito mais forte que a política. Se vencer a esquerda, parabéns; se for a direita, parabéns. Neste ano, estou 100% voltado ao empreendedorismo porque é a fórmula que eu acredito que consegue realizar a transformação de um indivíduo e de uma sociedade”, afirmou o empresário.
Neste ano, o empresário lançou uma espécie de MBA para crianças e adolescentes, a partir dos 8 anos até os 16 ou 17 anos, idade em que, em geral, o jovem está no fim do ensino médio.
Chamada de Mister Wiz, o novo negócio conta com 100 franqueados em oito estados. A companhia afirma que “o programa de ensino anual irá oferecer aulas presenciais e remotas, material de ensino, como livros e apostilas, jogos educacionais, atividades lúdicas e deverá contar com 80 horas/aula”.
O Mister Wiz será um programa pago, com mensalidades de R$ 200 a R$ 250. “Entendemos que hoje os jovens, especialmente os adolescentes, estão muito mais focados em ter um negócio próprio do que um emprego fixo”, disse. “Na minha geração, o sonho de todo jovem era começar como estagiário e se aposentar na mesma empresa. Esse sonho já não existe. Hoje o adolescente pensa em ter uma startup.”
* Reportagem atualizada em 26/10, às 13h, para incluir a resposta da Sforza Holding, grupo de investimentos de Carlos Wizard Martins.
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