Bloomberg Opinion — Depois do esperado pronunciamento do presidente Joe Biden na última semana, no qual ele anunciou o perdão das dívidas de determinados mutuários de empréstimos estudantis, ele espera melhorar a imagem dos democratas para as eleições de meio de mandato em novembro.
Mas, independentemente dos ganhos políticos no curto prazo, a decisão é um erro bem caro – da qual o governo quase certamente vai se arrepender.
O plano de Biden cancela US$ 10 mil em dívidas de empréstimo estudantil para mutuários com renda anual de US$ 125 mil ou menos ou US$ 250 mil para casais em união legal.
Os estudantes que receberam as Pell Grants, que ajudam as famílias de baixa renda a pagar a faculdade, terão abatimento de até US$ 20 mil. Biden também prorrogou o congelamento da amortização de empréstimos para todos os mutuários até o final do ano – a sétima prorrogação desde o início da pandemia.
A nova política alivia mais de 90% dos 45 milhões de americanos que carregam dívidas federais de empréstimos estudantis. A Casa Branca estima que 20 milhões de mutuários veriam suas dívidas cair para zero.
No entanto qualquer tipo de abatimento de empréstimos estudantis é um grande regresso, beneficiando os graduados às custas dos cerca de 60% dos americanos que não o fizeram.
Uma análise divulgada na terça-feira (23) apontou que aproximadamente 42% dos benefícios do perdão do empréstimo estudantil iriam para os dois quintos mais ricos dos americanos. Os 20% mais pobres receberiam apenas 12%.
Esses números subestimam o quanto isso prejudica a classe trabalhadora e os americanos pobres. O impacto combinado do cancelamento da dívida e da prorrogação do congelamento do pagamento custará aos contribuintes centenas de bilhões de dólares.
Pior ainda: ao privar o governo da receita esperada, a medida reduzirá o financiamento disponível para investimentos em educação básica e ensino infantil que seriam mais úteis para promover oportunidades econômicas e crescimento futuro.
Embora o perdão de empréstimos não coloque dinheiro no bolso dos mutuários, ainda existe o risco de alimentar a inflação, incentivando os consumidores a gastar um dinheiro que, de outra forma, teria sido destinado ao pagamento de suas dívidas.
E o perdão de dívidas neste momento apenas incentivará os estudantes a contrair empréstimos ainda maiores no futuro, reduzindo os incentivos para que as faculdades mantenham os custos das mensalidades – tornando o ensino superior ainda menos acessível para a classe média.
Mas poderia ter sido pior: os progressistas pressionaram a Casa Branca a cancelar até US$ 50 mil dólares em dívidas por mutuário, sem limite de renda – uma bonança ainda maior para os ricos e para aqueles com diplomas.
O fato de a decisão ter sido adiantada sob uma lógica jurídica duvidosa (que certamente enfrentará desafios nos tribunais) apenas destaca que os objetivos do governo são mais políticos que práticos.
O que acontece agora? No mínimo, Biden precisa remover qualquer ambiguidade sobre o fim do congelamento das amortizações e esclarecer que todos os mutuários terão que retomá-los no início de 2023.
O governo deve fazer mais para proteger os contribuintes. Por exemplo, reduzir o programa de abatimento de empréstimos de funcionários públicos, que permite que trabalhadores do setor público e em cargos sem fins lucrativos liquidem seus saldos remanescentes de empréstimos estudantis após 10 anos de pagamentos.
O plano de Biden, com base na renda, permitiria aos atuais e futuros mutuários fazer pagamentos mensais de 5% de sua renda discricionária (metade do valor atual); o Departamento de Educação deveria trabalhar para facilitar a inscrição dos mutuários no programa e o pagamento automático, o que reduziria a probabilidade de inadimplência.
Essas medidas ajudariam a mitigar os danos, mas apenas até certo ponto. Com apenas um anúncio, Biden minou qualquer compromisso com a disciplina fiscal, reforçou a reputação de seu partido de atender às elites, criou um risco moral significativo e provavelmente tornou o ensino superior menos acessível para uma geração. O cancelamento dessas dívidas pode muito bem agradar a partes da base de Biden. Mas todos os outros estarão pagando a conta.
Os Editores são membros do conselho editorial da Bloomberg Opinion.
— Editores: Romesh Ratnesar, Timothy Lavin.
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