Salto de 20% da noite para o dia: Argentina passa pelo pesadelo da hiperinflação

País passa por severa crise econômica, que faz população correr aos supermercados para evitar violentas oscilações de preço

Preços de colchões e bicicletas aumentaram 18% em apenas uma semana, enquanto as TVs custam 13% a mais e telefones celulares subiram 8%
Por Patrick Gillespie
08 de Julho, 2022 | 09:43 AM

Bloomberg — No domingo de manhã, os argentinos acordaram cedo e correram para o supermercado, a padaria, o shopping, onde quer que pudessem ir para se abastecerem rápido.

O noticiário da noite anterior havia trazido uma bomba: o ministro da economia, Martín Guzmán, havia renunciado de repente. E os argentinos, há muito acostumados ao caos financeiro, sabiam que a crise atual estava prestes a piorar bastante. Então, antes que a cotação do dólar disparasse quando os mercados reabrissem, e antes que os varejistas aumentassem preços, correram para comprar o essencial o mais rápido possível.

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Foi uma corrida contra a inflação em um país que já tem uma das taxas mais altas do mundo - 60% ao ano em maio. A taxa de câmbio paralela da Argentina, livre dos rígidos controles do governo, registrava desvalorização de 17% do peso até quinta-feira, levando lojistas em Buenos Aires a colocar cartazes anunciando um aumento de 20% em todos os preços.

Os preços de colchões e bicicletas aumentaram 18% em apenas uma semana, enquanto as TVs custam 13% a mais e telefones celulares aumentaram 8%, segundo dados da consultoria Ecolatina, com sede em Buenos Aires.

A diferença que uma semana faz: preços após a saída de Guzman dispararam loucamente, até mesmo para os padrões argentinos

“Ninguém tem uma estratégia, estamos apenas vivendo o momento”, disse Maximiliano Martinez, gerente de uma pequena loja de eletrodomésticos em uma faixa comercial de Buenos Aires, na tarde de quinta-feira.

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Como outros, Martinez aumentou os preços de todos os itens de sua loja – máquinas de café, torradeiras, liquidificadores, fones de ouvido – em 20%. Ele diz que seus fornecedores imediatamente aumentaram seus preços em 35%. Ele está procurando comprar etiquetas de preço digitais, disse, porque ficou difícil acompanhar o constante aumento de preços. “Não consigo mudar todas as etiquetas.”

Mesmo em uma economia global abalada pela inflação, a situação na Argentina é extrema. E levanta o temor de que a espiral inflacionária perene do país está entrando em uma nova fase vertiginosa que vai piorar a pressão sobre o presidente Alberto Fernández e o sofrimento de uma população que vem perdendo poder aquisitivo há anos.

Guzmán, embora não fosse dos mais queridos de Wall Street, era visto como alguém que garantia o tênue e crucial pacto de financiamento do governo com o Fundo Monetário Internacional.

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As reservas de moeda forte do país estão diminuindo. Os títulos da dívida externa, que foi reestruturada em 2020 após um terceiro default neste século, são negociados a meros 20 centavos por dólar. A diferença entre a taxa de câmbio paralela - 295 pesos por dólar - e a taxa de câmbio oficial - 127 por dólar - atingiu níveis não vistos desde o último pânico de desvalorização em 2020.

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