Por Gino Matos para Mercado Bitcoin
São Paulo — Durante muito tempo as criptomoedas foram vistas como um mercado financeiro que, diferentemente do tradicional, tinha sua volatilidade dissociada do noticiário. No entanto, Celso Sant’Ana, psicólogo focado em análise das emoções nesse ambiente, afirma que aqueles que investem em ativos de risco são mais suscetíveis ao impacto que alguns sentimentos provocam no preço dos ativos.
“O medo, a tristeza, a raiva e a euforia influenciam diretamente os investimentos de maior risco, pois quem está por trás deles são pessoas”, diz Sant”Ana. “A racionalidade na tomada de decisões é limitada pelas emoções, pelo que vivenciamos e passamos”, completa.
Difícil imaginar, mas dois sentimentos em especial mexem de forma tão direta com o mercado de criptomoedas que ganharam até um índice próprio: o Índice do Medo e da Ganância. Enquanto o medo produz um movimento de venda exagerada de ativos por parte dos investidores, com queda no preço dos ativos, a ganância tem efeito contrário, com investidores comprando e gerando valorização devido ao aumento da demanda.
Futuros de Bitcoin
Um exemplo em que a ganância levou o valor das criptomoedas para o alto foi o anúncio dos primeiros contratos futuros de Bitcoin, feito pela Chicago Mercantile Exchange (CME), em dezembro de 2017. Houve grande procura pelo produto, que resultou em uma valorização de 104% do Bitcoin nas duas semanas seguintes ao comunicado, afetando positivamente também outras moedas digitais.
Já o medo mostrou seu efeito negativo sobre o mercado com a fala de Elon Musk, CEO da Tesla, em maio de 2021, a respeito do impacto ambiental da mineração de criptomoedas. A informação adicional de que a empresa não mais aceitaria pagamentos em criptomoedas na compra de seus carros elétricos ajudou a acelerar a queda de quase 50% do Bitcoin nos 40 dias seguintes.
“Uma variável importantíssima a ser calculada é o medo, como podemos ver com os acontecimentos recentes da tensão entre Rússia e Ucrânia, que derrubou a maioria das bolsas de valores”, diz Sant’Ana. O psicólogo também diferencia os investidores do mercado de renda variável tradicional daqueles que investem em ativos digitais, ressaltando que estes últimos lidam melhor com situações relacionadas ao medo.
Regulação, crises globais e redes sociais
É importante conhecer quais eventos mais mexem com o emocional dos que alocam recursos em criptos. Em 2021, o jornalista Robert Stevens falou sobre os eventos regulatórios como um dos gatilhos para o humor do mercado de criptoativos.
Os países cujas decisões mais impactam esse mercado, segundo Stevens, são os Estados Unidos e a China. O anúncio da China, em setembro de 2021, que culminou no banimento das transações com criptomoedas e apertou o cerco contra a atividade de mineração cripto, provocou queda do Bitcoin de quase 10% em poucas horas.
Ao mesmo tempo, os rumores surgidos em 1º de outubro passado sobre a aprovação do primeiro ETF de Bitcoin dos Estados Unidos foram suficientes para levar a uma alta de 27% do criptoativo em uma semana. Em 20 de outubro, dois dias após o lançamento do fundo, o Bitcoin já acumulava ganho de 53%.
Além dos eventos regulatórios, os impactos negativos causados por crises globais são quase inevitáveis, ressalta o jornalista. Em março de 2020, quando a pandemia do novo coronavírus foi declarada, o Bitcoin seguiu o mercado tradicional e seu preço colapsou em quase 50%. Em fevereiro de 2022, sob as tensões entre Ucrânia e Rússia a queda chegou a 10%.
O mercado cripto está mudando?
O número de investidores do mercado de criptomoedas cresceu 178% em 2021, saltando de 106 milhões em janeiro para 295 milhões em dezembro do ano passado, indicam dados de uma pesquisa da Crypto.com. Questionado sobre se o aumento de investidores tradicionais no mercado cripto pode mudar a forma como se comporta psicologicamente, Sant’Ana não acredita que isso possa ocorrer.
“O que vai acontecer, a meu ver, é o investidor tradicional ter apetite maior pelo risco e adentrar o mercado de criptomoedas. Não acho, porém, que a chegada desses investidores mudaria a forma como o mercado cripto se movimenta”, diz.
Maurício Bellinelo, especialista em commodities da casa de análise O2 Research e referência em hedge para produtores agrícolas, avalia que tal movimentação do tradicional para os ativos digitais pode mudar as dinâmicas de comportamento.
“Essa é, inclusive, uma tendência que já se iniciou com a chegada de operadores institucionais migrando parte de seus portfólios para o mercado de criptomoedas”, diz. A justificativa, segundo ele, é de que quanto maiores os volumes negociados diariamente menor a possibilidade de movimentos bruscos ocorrerem sem que haja uma forma de amortecimento deles.
Em outras palavras, as compras impulsionadas pela ganância e as vendas oriundas do medo provocarão variações menores nos preços do Bitcoin e demais criptoativos. “Acredito que isso vem como uma mudança extremamente importante e relevante para o amadurecimento e crescimento global do mercado de criptomoedas”.