Por Gino Matos para Mercado Bitcoin
São Paulo — Dados publicados em setembro de 2021 pela consultoria imobiliária Savills, uma das maiores do mundo, apontam que o mercado global de imóveis atingiu o valor de US$ 326,5 trilhões em 2020. Apesar do tamanho expressivo, o acesso do pequeno investidor a esse mercado ainda é difícil. É nesse cenário que a tokenização tem se mostrado uma ferramenta de transformação social.
A tokenização é um dos movimentos que surgiram com a popularização do uso da blockchain fora da bolha das criptomoedas. ‘Tokenizar’ significa transferir um ativo real para um meio digital, podendo dividi-lo em frações chamadas de tokens. Os imóveis são, junto com as moedas fiduciárias e ações, exemplos de ativos reais que podem ser tokenizados.
“Os tokens facilitam a compra e venda de imóveis para investidores com menor poder aquisitivo ao fracionar os bens, como também podem servir como meio de financiamento para esse mercado, aumentando o número de empreendimentos e, consequentemente, de empregos”, avalia Evandro Rodrigues da Silva, CEO da brasileira BRAVO Empreendimentos, empresa de engenharia que nasceu na cidade paranaense de Maringá.
Silva explica que a liquidez do mercado de imóveis também tende a ser impulsionada, já que bens de valor considerável podem ser divididos em partes e assim comercializados. Junto com a Moreira Suzuki Advogados, a BRAVO venceu o Real Estate Tokenization Challenge 2021 com a primeira tokenização imobiliária brasileira de ativos próprios, desbancando mais de 50 projetos concorrentes.
O concurso é organizado anualmente pela Fibree, fundação internacional voltada à troca de conhecimentos entre a indústria imobiliária, o setor de Tecnologia da Informação (TI) e blockchain, em conjunto com a empresa de tecnologia eslovena Blocksquare, especializada na tokenização de imóveis.
Segundo Denis Petrovic, CEO da Blocksquare, a JLL, empresa de serviços imobiliários e gestão de investimentos, com sede em Chicago, reporta praticamente os mesmos números todos os anos: cerca de 80% dos investimentos comerciais relativos a imóveis são direcionados aos mesmos 60 centros urbanos ao redor do mundo.
Petrovcic justifica que as áreas urbanas são repetidamente escolhidas por conta de um ciclo, no qual é mais fácil investir em imóveis situados em zonas desenvolvidas que, por sua vez, seguem crescendo puxadas por esses aportes, feitos pelas empresas de sempre em razão do alto custo. Segundo ele, tal dinâmica cria um efeito migratório de pessoas para essas regiões.
Com a tokenização imobiliária, Petrovcic diz que o custo é reduzido e o investimento é democratizado. “Acredito que a tokenização não faz tanto sentido para Londres e Nova York, mas faz muito para áreas que precisam manter o dinheiro nelas para desenvolvimento. A América Latina é um bom exemplo, mas não é o único.”
Enrique Suárez, CEO da empresa mexicana focada em tokenização MountX, compartilha da visão de Petrovcic. Para Suárez, antes da tokenização, a sociedade não tinha acesso ao mercado imobiliário como veículo de investimento.
“A tokenização transformará profundamente nossa relação com o ramo imobiliário, dando às pessoas acesso a imóveis no âmbito global em razão da fracionarização do valor, além de oferecer segurança e transparência”, completa o CEO da MountX.
Brasil e México na frente
Na América Latina, Brasil e México são apontados como as regiões mais prósperas do mercado de moedas digitais por empresas de capital de risco voltadas a esse setor. Na visão de Suárez, o mesmo pode ser dito em relação ao ramo de tokenização imobiliária, em razão do desenvolvimento dos criptoativos nesses países.
Ele diz que as criptomoedas e os desenvolvimentos em blockchain dão mais visibilidade ao mercado de tokenização naquelas regiões. “As pessoas já estão acostumadas a investir em criptomoedas usando seus celulares. Por isso, enxergam os tokens imobiliários como mais uma forma de diversificar o portfólio”, fala.
Silva, da BRAVO, ratifica parte da afirmação de Suárez avaliando que o mundo ainda “engatinha” quando o assunto é tokenização imobiliária, mas que o Brasil tem dado passos mais largos não apenas na elaboração de projetos, mas em relação à estrutura para esse mercado dentro do país.
“Ainda é cedo para afirmar que o Brasil já é uma potência nessa questão, mas acredito muito na capacidade do país para se posicionar com destaque não só na América Latina, mas no mundo.”