Junk bonds de bitcoin oferecem caminho imperfeito para criptos

Questão que aflige Wall Street é por que havia tanta demanda pela dívida quando há maneiras mais diretas e potencialmente mais lucrativas de investir se o bitcoin algum dia “alcançar a lua”

Bitcoin desperta interesse de investidor em Wall Street
Por Paula Seligson, Crystal Kim
09 de Junho, 2021 | 05:27 PM

(Bloomberg) A MicroStrategy Inc., já avançada em sua transformação de uma empresa de software em um repositório de bitcoin, acaba de vender junk bonds que oferecem aos investidores uma nova maneira de colocar dinheiro em criptomoedas.

A questão que aflige Wall Street, no entanto, é por que havia tanta demanda pela dívida quando há maneiras mais diretas e potencialmente mais lucrativas de investir se o bitcoin algum dia “alcançar a lua” - como simplesmente comprar o próprio bitcoin.

PUBLICIDADE

No entanto, a MicroStrategy teve facilidade com sua oferta, a primeira transação do tipo para financiar compra de bitcoin. Originalmente planejava vender US$ 400 milhões, mas tinha pedidos para tudo isso antes mesmo de lançar oficialmente a transação com uma presença sólida em hedge funds. Isso aumentou a oferta para US$ 500 milhões e garantiu preços mais baixos.

Parte dessa demanda veio de investidores buscando exposição ao bitcoin, mas que não podem comprar as moedas digitais diretamente devido a como seus fundos são estruturados, segundo uma pessoa com conhecimento direto da oferta, que pediu para não ser identificada discutindo detalhes privados.

Isso não é tão diferente quanto pode parecer. Durante anos, investidores ansiavam por acesso à criptomoedas à medida que os preços disparavam, mas Wall Street nem sempre facilitou isso, pois lutou para descobrir como incorporar algo tão novo em antigas estruturas de investimento.

PUBLICIDADE

E reguladores dos EUA continuam a frustrar os esforços para listar ETFs de bitcoin, que seriam negociados em bolsas como qualquer outra ação e aumentariam drasticamente o acesso.

Como os ETFs, a dívida corporativa é um jogo justo para uma ampla gama de investidores institucionais. Então, por enquanto, mergulhar no bitcoin pode significar a compra de dívida da MicroStrategy de sete anos com rendimento de 6% - um retorno muito bom para um junk bond emitido por uma empresa com um perfil de crédito como a MicroStrategy, mas nada como o bitcoin tem entregue historicamente. Nos últimos sete anos, o bitcoin cresceu mais de 5.500%.

“Um título tem um retorno fixo, então você nunca terá o lado positivo do bitcoin, o emissor terá”, disse Christopher White, CEO da ViableMkts, uma empresa de serviços financeiros. Para os investidores otimistas com a criptomoeda, “você pode muito bem comprar bitcoin”, disse.

PUBLICIDADE

Compradores no negócio da MicroStrategy foram atraídos para a proteção do lado negativo inerente aos títulos garantidos - fornecida pelo fluxo de caixa positivo da empresa e propriedade intelectual do software mais os bitcoins que serão comprados - mesmo que eles não tenham um grande potencial de valorização. O bitcoin despencou desde meados de abril, perdendo quase a metade de seu valor desde então, expondo o risco de perdas.

Os investidores receberão um cupom de 6,125% sobre o título, que não pode ser reembolsado antecipadamente nos primeiros três anos. A nova dívida é garantida pelo bitcoin que se pretende comprar, mas não pelo atual tesouro de bitcoin da empresa. A MicroStrategy colocou seus 92.079 bitcoins atuais - atualmente avaliados em mais de US$ 3 bilhões - em uma subsidiária recém-formada chamada MacroStrategy LLC, segundo comunicado à imprensa.

Os novos junk bonds podem fazer sentido para um investidor tradicional em títulos de alto rendimento que acredita nos fundamentos do negócio de software, e até mesmo uma espécie de hedge para aqueles que já estão comprados em bitcoin ou no patrimônio da empresa. Classificado como Ba3 pelo Moody’s Investors Service, que reflete três passos no território de junk, oferece um mark-up em comparação com o rendimento médio de 3,22% para títulos com classificação BB, de acordo com dados do índice Bloomberg Barclays, refletindo o risco adicional de atuar como um proxy de bitcoin.

PUBLICIDADE

Risco de refinanciamento

“Em teoria, você poderia subscrever isso principalmente olhando para o negócio operacional e, potencialmente, tomar uma decisão sem muita visão sobre o bitcoin”, afirma Bill Zox, gerente de portfólio de títulos de alto rendimento da Diamond Hill Capital Management.

A empresa já havia emitido títulos conversíveis para compra de bitcoin. Seus resultados foram mistos. Notas emitidas em dezembro estão sendo negociadas bem acima do valor nominal, a cerca de 131 centavos por dólar, e têm um preço de conversão abaixo de onde as ações são atualmente negociadas. Mas os emitidos em fevereiro são negociados a níveis bastante problemáticos de apenas 66 centavos por dólar, com preço de conversão acima de US$ 1.400. O preço das ações da MicroStrategy é de cerca de US$ 480.

Se o bitcoin cair muito, levando o patrimônio abaixo de ambos os preços de conversão, a empresa eventualmente poderá ter de refinanciar essas duas notas conversíveis com dívida tradicional. Isso aumentaria a alavancagem em cerca de 19 vezes, com base em US$ 2,2 bilhões em dívida total e US$ 115 milhões de Ebitda, uma medida chave de lucratividade, de acordo com um memorando de oferta visto pela Bloomberg. Tal alavancagem raramente é vista fora de situações de grande dificuldade.

Se o bitcoin cair abaixo de US$ 6.000, a S&P Global Ratings prevê que a empresa deverá efetuar uma troca de dívidas problemática antes do vencimento da dívida conversível, segundo relatório.

A cada oferta de títulos, a MicroStrategy abre seu backdoor de bitcoin ainda mais para investidores institucionais.

“O bitcoin chegou a Wall Street”, afirmou o CEO Michael Saylor em entrevista por telefone. “Minha missão é abrir um canal entre o oceano de US$ 400 trilhões de ativos convencionais e o lago de US$ 1 trilhão de bitcoins.”